terça-feira, março 09, 2010

PALAVRAS PARA QUÊ?

Os comentários foram rareando, a modos que numa solidariedade estreita com o escassear da Esperança. Diziam que o Mundo mudava, mas não muda. Há para aí estirpes necrófagas que tendem morbidamente a toldar horizontes. Vivem das trevas e da putrefacção. Criam cenários desoladores. Criam estribilhos que falam de mudança, mas afastam-na com modos abruptos e brutais.
De facto, existe uma lógica neste estranho modo de ser e de estar. Mudar realmente, naquele sentido que se nos prefigura, implica, pura e simplesmente, a erradicação destes protagonismos indesejáveis.

sexta-feira, janeiro 01, 2010

INTERVIR




O Monge tinha desistido dos seus mais ou menos regulares monólogos. De facto, assustou-se com a sua faculdade de antever o futuro. Mais do que isso, aterrorizou-se com a natureza catastrófica do que antevia. Mais do que isso, desanimou face à sua inevitabilidade. Deu como facto consumado a impossibilidade de desviar o fluxo temporal da sua sequência e sentido último. É um tremendo erro existencial.

Deste modo, contemporizou com a natureza determinista de certa visão da História. Claudicou face à crença da intervenção humana e da sua eficácia no sentido de delinear o seu próprio destino. Pois, o Monge é um homem, um homem por ora desanimado e descrente. Não há nada pior do que isso.

Essa descrença acentuou-se quando o Monge se apercebeu da enormidade da intervenção a fazer para desviar o curso dos acontecimentos. O que se pede é uma tarefa monstruosa no que respeita à magnitude dos meios a mobilizar, das vontades a cativar e dos efeitos a obter. De facto, o que se pede é uma autêntica revolução. Uma revolução global, profunda, inevitavelmente sofrida, como o são todas as revoluções. Revolução no indivíduo, nos grupos, nas mentalidades, no modo de ser e de viver.


Impõe-se uma mudança radical no espectro social, apeando protagonistas económicos e políticos. Impõe-se uma mudança substantiva nas interacções do poder e no objectivo último do seu exercício, sempre no sentido de garantir um presente e um futuro de qualidade para as gerações.


Impõe-se a responsabilização de quem contribuiu para este caos, para esta acumulação de injustiças e para um retrocesso concreto, no que concerne ao respeito pelos direitos fundamentais e pela capacidade de os incorporar na sua prática política, económica e social. Impõe-se um efeito dissuasor que evite as consecutivas recaídas de uma sociedade que não aprende com os seus próprios erros, patologicamente incapaz de analisar as suas causas no friso histórico da sua própria existência.

No entanto, há sinais de que vários sectores desta sociedade não se conformam e se assumem como protagonistas da mudança. São bons sinais e um exemplo para o Monge e para a sua súbita apatia. Senão vejamos o que se transcreve seguidamente, noticiado no jornal Público, neste primeiro dia de 2010:


“A humanidade está, como nunca, perante o desafio de renovação de civilização”, palavras de D. José Policarpo na sua homilia do Dia Mundial da Paz, proferida na paróquia de Nossa Senhora da Purificação de Oeiras.

O cardeal patriarca direccionou as suas palavras para os “grandes problemas” que, numa época de globalização, “são comuns a toda a família humana, como o são, por exemplo, a salvaguarda do planeta Terra, a casa onde habitamos, a construção da paz, a vitória contra a violência, a promoção da justiça, de modo particular nos sistemas económico-financeiros e sociais”.

E, se os problemas são globais, também as soluções terão de o ser, considerou, referindo que a opinião pública portuguesa tem sido mobilizada na atenção a problemas específicos: “a crise económica, a violência crescente, a eficácia do sistema judicial, a corrupção, a luta contra a degradação do ambiente”.

D. José da Cruz Policarpo lembrou que estes problemas estão interligados, sendo causa-efeito uns dos outros.

“Administrar a justiça numa sociedade em que as pessoas e as instituições não procuram ser justas é tarefa árdua e complexa”.
A solução para todos estes “graves problemas da sociedade exige uma profunda revolução cultural e civilizacional”, devendo a tónica ser posta na educação, na família, na comunicação social, nas estruturas culturais, na formação para a liberdade.

“Espanta-me que se façam cimeiras sectoriais, sobre a preservação do ambiente, sobre a economia, sobre a crise financeira, e que ainda não se tivesse dado o mesmo relevo a cimeiras de aprofundamento civilizacional”.

D. José Policarpo relevou ainda que “a Igreja é necessária às grandes causas da humanidade” e que, num quadro de globalização, o debate tem de passar por um diálogo entre civilizações, onde a Igreja Católica e as grandes religiões da humanidade têm um contributo a dar.

segunda-feira, junho 08, 2009

Tempos de Cólera




OTTO RAPP

O Monge compreende, e assume como manifestação de saúde democrática, por parte do eleitorado, o voto de protesto ontem claramente publicitado. Sublinha que não foi o primeiro sinal do género: as presidenciais já o tinham sido.



Fica, no entanto, perplexo com o sistemático sintoma de autismo social e político de um governo que se ancorou cegamente numa maioria eleitoral que, relembre-se, constituiu, por si só, naquela conjuntura, outro sinal de descontentamento face ao rumo da política nacional e também internacional a qual, inexoravelmente, conduziu a esta crise que, por tão próxima e enjoativamente insinuante, se tornou parte da família.



Voluntarismo extremo poucas vezes é sinal de inteligência e repudia o bom senso que deve, obrigatoriamente, constar do perfil de qualquer político, em particular com responsabilidades governativas.



Este governo constituiu, de facto, uma oportunidade perdida no sentido do bem-estar e coesão sociais. Essa esperança, orientada para uma reorientação das políticas que se vinham implementando, sustentou a maioria absoluta de que beneficiou.



É certo que, uma quinzena depois, já os eleitores, defraudados e infamemente traídos, se tinham arrependido. Não se arrepiou caminho, antes se caminhou, obsessivamente, numa senda geradora de injustiças, desigualdades, atropelo de valores e direitos fundamentais.



Foi uma maioria transfigurada em ditadura, com toda a prepotência, arrogância e ausência de diálogo que a todas caracterizam. Como todas as ditaduras, surda e cega aos sinais da rua, encapsulada na sua armadura do pensamento único e, por conseguinte, antidemocrático.



Há muita amargura e bastante descrença nestas palavras, que constatam a facilidade de abastardamento de um sistema democrático e o estranho determinismo que conduz, irrevogavelmente à penalização das eternas vítimas: as franjas mais desfavorecidas da população, irremediavelmente sujeitas à chantagem e pressão do poder económico, travestido de político.



Trinta e tal anos após Abril, a realidade nua e crua ensina-nos que nunca devemos baixar a guarda e muito menos abster-nos de um direito de participação ou de intervenção que não se deve restringir ao mero exercício do voto.



Como se viu, em quatro anos muito se pode destruir. O retrocesso social pode parecer-nos irremediável. Trinta e tal anos de percurso pulverizam-se num ápice.



Mas. também como se viu, é quase impossível calar a indignação. O povo sai à rua em dias assim. É uma reacção tão natural e espontânea como o fenómeno neo-liberal. É um fenómeno de acção/reacção com a natureza dogmática equivalente à de uma qualquer lei física comprovada.



Pode parecer cansativo ou exasperante, mas a natureza do Homem e das comunidades humanas é esta: um eterno ciclo de parada-resposta, um processo de permanente convecção social.



Caríssimos, tempos mais duros estão para chegar. Se tiveram o cuidado de verificar, a Europa, a tal União, com o sagrado objectivo inicial da paz, do progresso por todos e para todos, esfumou-se com a flagrante viragem à direita do espectro parlamentar europeu. Vêm aí mais precaridade, mais desprotecção laboral dos trabalhadores, mais desemprego e outras chagas neo-liberais.



Por mim, esta Europa é uma fraude, é menos que nada, é um paradoxo, um choque para os seus progenitores.



Por mim, é cerrar os dentes e ir à luta, sem quartel, por nós e, principalmente, pelas gerações futuras, numa intenção de fruição e partilha do progresso tecnológico evidente, que deveria conduzir à qualidade de vida e bem-estar de todos, sem excepção.







Palavra do Monge

quinta-feira, abril 30, 2009

Portugal na voz de Ary



As Portas que Abril Abriu

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.
Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.
Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.
Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.
Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.
Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.
Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.
Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação
uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.
Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.
Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.
Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.
Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
– pode nascer um país
do ventre duma chaimite.
Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
– é força revolucionária!
Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.
Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.
E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados «páras»
que não queriam o degredo
dum povo que se separa.
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.
Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.
Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma ração
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão.
Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.
Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril f
ez Portugal renascer.
E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.
Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.
Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.
Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.
Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.
Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.
Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.
E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.
Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.
E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.
A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que se desdobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.
Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.
E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideais
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.
Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio fazia
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.
Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.
E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.
Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.
Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.
Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.
Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.
Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
— cumpriu-se a revolução.
Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os generais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.
Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.
E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.
Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.
E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
aprenderam Portugal.
Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opõe àqueles que o firam
consciência nacional.
Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.
Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.
Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.
Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.
Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
– Não havia estado novo
nos poemas de Camões!
Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.
Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.
Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.
E em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalho crescer.
Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
dum país que vai nascer.
Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser
pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.
No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!
É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.
Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.
Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.
Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

José Carlos Ary dos Santos
Lisboa
Julho-Agosto de 1975
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O primeiro 1.º de Maio aqui, com Vivian Barros.
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segunda-feira, abril 20, 2009

Acto de Confissão

O Monge andava intranquilo, ensimesmado, arredio. Se ascético era, mais ascético ficou. Afastou-se das lides da escrita com a sensação que tudo aquilo que escrevia, vade retro, assumia inexorável realidade.

Mas, a acrescer a esta espécie de psicose, um sintoma de uma virose pandémica e incurável se manifestou. Intrusivo, invadiu-lhe um órgão nestes novos tempos muito pouco activo, comparável ao malfadado apêndice ou às desconfortáveis amígdalas: a consciência. O Monge partilhava a teoria que, com o desuso, o órgão fina-se. Enganou-se.

O dito órgão não se finou. Pelo contrário, com regularidade crescente, aferroava-lhe a alma e o corpo. Tudo por causa de umas prendas, umas reles mas corruptivas prendas.

O Monge pensava que não devia aceitar as ditas mas, devido ao seu peculiar modo de ser, respondia com cortesia à cortesia. Afinal, era má educação recusar uma prenda. Mas também era corrupção aceitá-la. E o Monge aceitou.

Aceitou um coelho vivo, numa cestinha de verga que, na primeira janela de oportunidade, se pisgou lampeiro, para a segurança do seu ambiente natural.
Aceitou uma caixa de bolachas, que não pôde comer, devido a uma impertinente restrição médica.
Aceitou umas garrafitas de vinho generoso, de cujas delícias não pôde desfrutar, por ser abstémio.
Aceitou uns chocolates, deliciosos, dos de marca, suiços, que se derreteram num ápice, devido à temperatura estival à data do crime.

Nunca falou disto a nínguém, nem antes, nem muito menos agora, quando jorram retaliações terríveis contra infames actos ditos de corrupção.
Mas, precisamente neste dia, veio a saber que, afinal, sempre se podem aceitar prendas. E que os valores das mesmas têm limites. E que visam premiar a excelência do serviço prestado.
Fazendo bem as contas, o Monge foi lesado. Afinal as prendas, de que verdadeiramente não usufruiu, estavam abaixo do limite legalmente consignado. O facto é que, literalmente, o Monge foi roubado.

Apesar disso, congratula-se o Monge. A sua consciência, subitamente, arejou e perdeu peso. Veio a saber também que pode, eventualmente, circular entre serviços. Tudo para evitar uma viciante e ilícita familiaridade com o público que serve. Nada de confiança, que o público é dotado de uma aviltante capacidade de corromper.

A mobilidade será, sem possibilidade de contra-argumentação, benfazeja e até factor de produtividade. Imagine-se: o autarca X a rodar para a autarquia Y; o deputado Z a mudar para a bancada f. o vereador h a mudar para a oposição. O primeiro ministro do partido S a rodar para o partido D. Desculpem, isto já acontecia...

Poderemos, evidentemente, ser confrontados com situações algo inusitadas. O Presidente da Câmara a fazer serviço de recepcionista. O recepcionista a fazer serviço de supremo autarca municipal. Apesar do insólito, convenhamos que a medida é oportuna. E, em termos de produtividade dos serviços será de uma eficácia sem contestação.

A bem da Nação, abaixo a corrupção doentia no funcionalismo. No público, é claro!

Afinal, as desejadas medidas cá estão. Nada de prendas e nada de contacto promíscuo com o público. Cravinho, volta, estás reabilitado.

Ah! Esquecia-me. Aquelas idas e vindas, na Caixa Geral Geral de Depósitos, que o Monge, na sua santa ingenuidade, tomava por idas aos sanitários, devidamente assinalados com Caixa Azul, ou algo do género, vão acabar. Agora é papelinho numerado para todos.

(Sanitários, valha-te Santa Luzia! Sempre as mesmas pessoas e sempre com a mesma diarreia. Sinceramente... Parvo!)

Contra a corrupção, sempre.

Palavra do Monge

quarta-feira, março 18, 2009

ESBOÇO

Pintura digital - Anicoe

domingo, março 01, 2009

segunda-feira, janeiro 26, 2009

A paternidade da Crise

Day Break
Autor Desconhecido





Ao princípio era simples: a crise era apenas um boato, longínquo, desvanecido. O nosso país, na torrencial verborreia desta peculiar saga de governantes, estava vacinado, imune às suas funestas consequências, graças a esticões atempados e a preceito no cinto dos funcionários públicos e trabalhadores em geral.


Sorrateira, dengosa, com apurado sentido predador, a crise rondou e atacou, fulminantemente. Parceiros de peso foram desabando, uns após outros, mas Portugal, inabalável, exibia a sua carapaça inatacável, segundo a escorreita verborreia dos nossos singulares governantes.


Súbita e inesperadamente a carapaça cedeu. A crise instalou-se sem apelo nem agravo. O descalabro financeiro, a patologia do desemprego, as falências em catadupa acumularam-se.


Mas a culpa é, indiscutivelmente, da crise. É a verborreia rotinada dos nossos palavrosos governantes que o afirma. A crise é intangível, imprevisível, definitivamente externa.


Deixemo-nos de tretas. Não somos palermas. Somos crescidos e amadurecidos nestas coisas da política. Crestámos consciências nas nossas opções políticas recentes. Ficaram cicatrizes e desconfio que gangrena também.


Sabemos muito bem que estes governantes e os anteriores têm perfil de criadores de crises. Esta crise antes de o ser já o era. Conscientemente, esta governança alinhou decisões, num plágio indecoroso, pelos ventos neoliberais que se insinuaram mundo ocidental fora.


Esse temporal reduziu direitos, as tais regalias, na redita verborreia, reduziu poder de compra, precarizou empregos, gerou desempregos, dissolveu expectativas, disseminou insegurança, proclamou flexibilidades de uma só via.


Encolheu o Estado. Congelou admissões na função pública. Encerrou escolas, maternidades, centros de saúde, numa sanha destruidora implacável. Destruiu projectos de futuro, carreiras, sonhos de jovens sôfregos de autonomia. Condicionou projectos de famílias, destruiu outras, sem manifestações visíveis de remorso ou de má consciência.


Criou guetos. Segregou sectores desfavorecidos. Estimulou a criminalidade e a violência. Desenraizou forçadamente crianças do seu acolhedor meio materno. Incrementou a desertificação do interior. Estigmatizou sectores fragilizados com o peso da solidão.


Estes governantes que pululam nos media, hora a hora, dia a dia, pretendem lavar as mãos, institucionalizar a impunidade. Em vão.


A crise, esta crise, não é filha de pais incógnitos, não é orfã de pai nem de mãe. Os seus progenitores querem varrer responsabilidades. Em vão.


Esta crise tem pai e mãe. Aqui e agora o Monge assim o atesta. O pai é este governo desvergonhado e a mãe a seita parlamentar que lhe presta vassalagem.


Palavra do Monge

domingo, janeiro 04, 2009

Sermão de Ano Novo

Monkey Portrait - Leanne Wildermuth






Caríssimos Irmãos:




As minhas primeiras palavras deste, provávelmente, infausto ano que ora se inicia são os mais insistentes apelos à cautela. Que não vos deixeis tomar por parvos, por incautos ingénuos, facilmente seduzidos pelo verbo insinuante dos truões, useiros e vezeiros da mentira, que dissemina uma imperscrutável velatura sobre a realidade mais dura subjacente.




Já vos deixastes cair no engodo uma vez. Lembrai-vos das funestas consequências de tal acto. Eu sei. Fui dos tais que caíu no logro. Homem de boa fé. Aprendemos com as boas e as más experiências, com o mal e com o bem. Ultimamente mais com o mal do que com o bem. Mas acho que um erro é o limite que devemos estabelecer para a nossa sempre incompleta capacidade de eternos aprendizes.




Mantende-vos em estado de alerta continuado. Duvidai dos vossos olhos e dos vossos ouvidos. Desconfiai das paredes que vos cercam. Sede críticos. Tornai-vos homens de pouca mas acertada fé. Questionai sentidos e realidade. Duvidai metódica e sistematicamente.




Pois ficai sabendo... Este mundo é comparável a uma fecunda árvore, repleta de melífluos e nutrientes frutos, com um característica invulgar: em cada galho proliferavam frutos com a mesma quantidade e qualidade. Por tal circunstância, era a preferida de um bando de ruidosos e agitados símios que, para obstarem a conflitos e divergências, apalavraram ajuizadamente que a cada um seria atribuído um e um só galho. Deste modo, viveram felizes e em paz, durante bons e prolongados tempos.




Mas a paz não era consentânea com a sua estrutura genética, na qual estava implantada uma irreversível e inquietante ambição. Desta forma, alguns destes símios passaram a expulsar os menos determinados dos galhos que lhe foram conferidos por direito, o que lhes permitiu acesso privilegiado a uma dose dupla de melífluos e nutrientes frutos. Satisfeitos com os resultados, continuaram a usar a mesma estratégia, com saborosas consequências. Criaram assim uma comunidade símia dividida em duas classes essenciais: uma numerosa classe de símios pobres e outra classe, pouco numerosa mas detentora de um considerável excedente de melífluo e nutriente capital.




Esta simiesca elite ocupou definitivamente a fértil árvore com todos os seus proventos. Os demais símios mendigavam, rés ao solo, os raros frutos que caíam ou ofereciam as suas reconhecidas competências de catadores em troca da satisfação das meras necessidades básicas. Gerou-se, assim, uma sociedade de macacos catados e macacos catadores.




Agora, analisai e extraí conclusões. A árvore é o nosso mundo. Macacos catadores sou eu e a minha pachorrenta audiência (às tantas, apenas eu, e isto é um entediante monólogo). Macacos catados são aqueles que, cada vez mais frequentemente, exigem os nossos préstimos catadores.


Por isso, abominai as burlescas caretas dos catados que se babam por catadelas. Votai, quando a isso fordes chamados. Mas doai o vosso voto a catadores. Só assim deixareis de o ser. Pelo menos, temporariamente.





Palavra do Monge

quinta-feira, dezembro 25, 2008

segunda-feira, dezembro 15, 2008

É Urgente Reconstruir

Dicas para um trabalho de reconstrução social, de resposta à crise originada pela deriva à direita de má memória.
"1º-Reconhecimento da centralidade do papel do Estado. O termo 'Estado estratega' foi já utilizado para caracterizar o que agora, mais do que nunca é necessário: um Estado que em nome de prioridades públicas reassume o controlo de sectores estratégicos, se responsabiliza pela provisão de serviços públicos e pela gestão do território, e que utiliza os meios de que dispõe para incentivar e orientar o investimento privado. Entre nós é urgente compreender que a redução dos défices e das dependências externas, que efectivamente crescem a taxas alarmantes, depende de uma reorientação do investimento privado dos sectores abrigados da concorrência internacional, para a produção de bens transaccionáveis, exportáveis e capazes de substituir importações. Em Portugal é preciso contrariar a livre circulação de pessoas, bens e capitais entre o público e o privado; é preciso separar serviço público de negócio privado.
2º-Valorização do serviço público. “O nosso País não está condenado a escolher entre serviços decadentes e burocratizados, de um lado, e a erosão do Estado conduzida segundo a ideologia gestionária da modernização, do outro”, disse Jorge Bateira. Existem outras modernizações possíveis que respeitem os funcionários do Estado e os vejam como pessoas que podem e querem valorizar-se e ser actores de mudança. Reformas que começam por ouvir aqueles que são os rostos da Administração Pública e os cidadãos. Modernizações que, sem reduzir os servidores do Estado à condição de oportunistas e egoístas, nutram os valores característicos da ética de serviço público.
3º-Combate à desigualdade pela valorização do trabalho. A provisão pública de serviços aos cidadãos é apenas um dos instrumentos do combate às desigualdades. O caso português, como tantos outros, é ilustrativo das limitações das políticas sociais meramente reparadoras. A par das políticas reparadoras é necessário desmercadorizar o trabalho. Reconhecer que a repartição do rendimento depende de instituições sociais e de políticas. Que toda a legislação que regula as relações de trabalho, a par das políticas macroeconómicas que podem estimular mais ou menos o emprego e orientar melhor ou pior o investimento, são determinantes fundamentais da repartição primária. Isto é tanto mais importante quanto o desemprego e a exclusão deixaram já de ser os únicos mecanismos geradores de pobreza e o próprio sistema produtivo voltou a produzir, a par de mercadorias, trabalhadores pobres."
José M. Castro Caldas, in Ladrões de Bicicletas

Notas para um Debate

Publicado por João Rodrigues, no blogue Ladrões de Bicicletas. Actual.

"Contribuir para a construção do que Manuel Alegre designou por Estado estratega é uma das tarefas da esquerda socialista. Esta ideia foi também abordada por Jorge Bateira em artigo, que vale a pena recuperar, onde defende que se repense a relação entre Estado e mercados como construções políticas passíveis de várias configurações. Um Estado estratega tem de ser capaz de disciplinar o poder empresarial privado e de impedir que este sobreviva através da transferência sistemática de custos para os consumidores, para os trabalhadores e para a generalidade dos cidadãos, sob a forma, por exemplo, de produtos perigosos para a saúde, de salários baixos, de más condições de trabalho ou de actividades poluidoras.Outras práticas, quase sempre predadoras, devem ser também bloqueadas. Estou a pensar na entrada de empresas privadas no campo das actividades tradicionalmente associadas ao Estado Social e à gestão de equipamentos e infra-estruturas públicas. É preciso travar a busca de lucros à custa do esvaziamento do Estado e da perversão dos serviços e equipamentos públicos. Como já aqui defendi, esta é uma das mais pesadas heranças da «esquerda moderna» rendida à última fase do neoliberalismo agora em crise. Um Estado estratega tem de mobilizar os instrumentos de política disponíveis para encaminhar o sector privado para as actividades de produção de bens transaccionáveis para exportação. É aqui que as virtudes do empreendedorismo podem ser testadas. Os apoios públicos a sectores económicos, em tempos de crise, devem ser canalizados para a sua promoção. Um sector financeiro público cada vez mais robusto e capaz de forjar uma política de crédito adequada pode ajudar.
Isto passa também por traçar linhas de protecção em torno dos serviços públicos e de sectores naturalmente monopolistas. É também por isto que a provisão pública de bens e serviços sociais e a propriedade pública de sectores estratégicos continuam a ser decisivas. Há muito tempo que as privatizações apenas contribuem para a consolidação de grupos económicos rentistas que capturam reguladores e decisores políticos. Quem quer investir em bens e serviços para exportação quando pode controlar a Brisa, a Lusoponte ou a REN, empresas onde, dada a natureza da actividade, os lucros estão praticamente garantidos?"

VIA NOVA

Transcrição de artigo de Manuel Alegre, no Diário de Notícias. Pertinente.

"Segundo o general de Gaulle, comete-se por vezes o erro de ter razão antes de tempo. Na moção "Falar é preciso", apresentada ao Congresso do PS em 1999, cometi esse erro: "A crise financeira que alastrou, dos mercados asiáticos à Rússia e já ameaça gravemente o Brasil e toda a América Latina, pode minar, de um momento para o outro, pela incerteza e pela volatilidade, o próprio funcionamento dos maiores centros financeiros do mundo. A 'mão invisível' falhou. São os mais ortodoxos ultraliberais, como Milton Friedman, quem vêm agora pedir a nacionalização da banca no Japão."E é por isso que é necessária uma nova esquerda. À escala europeia, primeiro. Mas capaz de se fazer ouvir, também, à escala mundial. À dimensão planetária do actual poder económico, financeiro e mediático, há que contrapor uma alternativa política."Temos de continuar a exigir uma reforma das instituições internacionais, do FMI ao Banco Mundial, para que deixem de ser arautos e agentes do pensamento único. Outra lógica terá de presidir à Organização Mundial do Comércio, para que a livre circulação de mercadorias não se torne em mais um instrumento de enfraquecimento das economias mais frágeis."É preciso regular os mercados financeiros mundiais, cuja ditadura e irracionalidade põem em causa a própria estabilidade dos sistemas políticos democráticos."Que fazer agora?Os defensores do Estado mínimo, ideologicamente derrotados, pedem a intervenção do Estado. Para quê? Suspeita-se que para manter o que está e socializar as perdas. O problema é que, se tudo ficar na mesma, as mesmas causas produzirão os mesmos efeitos.E a esquerda? Como escrevi, também antes de tempo, na moção que levei ao Congresso do PS de 2004: "A esquerda tem de integrar e debater, no seu pensamento próprio, os princípios e os instrumentos possíveis de regulação da globalização: o combate à predação das multinacionais que localizam e deslocalizam investimentos a seu bel-prazer, a taxação das transacções financeiras internacionais, a abertura dos mercados dos países desenvolvidos às exportações oriundas dos países em vias de desenvolvimento, a travagem da proliferação dos off-shores, o combate à economia 'suja' dos tráficos de pessoas, drogas e dinheiro, o combate à exploração de mão-de-obra infantil, escrava ou sem quaisquer direitos sociais, e à degradação ambiental."Propus então um novo Contrato Social. E um Estado estratega, "cuja função não se reduz ao papel de árbitro, mas de produtor de bens públicos essenciais, desde o funcionamento do Estado de Direito à promoção dos serviços de interesse geral e à regulação dos mercados. Um Estado estratega a quem caberá suprir as falhas do mercado e estimular áreas ou sectores qualificados." E acrescentava: "Para desempenhar essa função, o Estado precisa de manter nas suas mãos instrumentos eficazes, como por exemplo a Caixa Geral de Depósitos."Hoje até Alan Greenspan reconheceu que errou ao confiar que o mercado pode regular-se a si próprio. Mas, em 2004, aquelas ideias que propus pareceram arcaicas aos fundamentalistas do neoliberalismo e aos entusiastas da chamada esquerda moderna.Não se sabe que réplicas se seguirão ao tsunami que abalou o sistema financeiro mundial. Nem até que ponto irá a recessão económica e quais as suas consequências sociais e políticas. Sabe-se que nada ficará como dantes. Mas em que sentido se fará a mudança? Era aí que a esquerda deveria ter um papel. Mas onde está ela? Talvez algo de novo possa surgir de uma vitória de Obama. Pelo menos um sopro de renovação. Mas há um grande défice de esquerda na Europa. Uma nova esquerda só poderá nascer de várias rupturas das diferentes esquerdas consigo mesmas. Ruptura com as práticas gestionárias e cúmplices do pensamento único. Ruptura com a cultura do poder pelo poder e com o seu contrário, a cultura da margem pela margem, da contra-sociedade e do contrapoder. Processo difícil, complicado, mas sem o qual não será possível construir novas convergências. Não para a mirífica repetição da revolução russa de 1917, nem para um modelo utópico global. Tão-pouco para segundas ou terceiras vias. Mas para uma via nova, que restitua à esquerda a sua função de força transformadora da sociedade e criadora de soluções políticas alternativas."

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Em prol da Ecologia e da Higiene Educativa



Não existem dúvidas. A Educação deste país está ferida de morte com causa bem conhecida: a sua ministra, a sua irredutibilidade, a sua má intencionalidade, bastante incompetência e muito desconhecimento da área que devia dominar. De resto, sabemos claramente a razão da sua escolha. E esta não foi, certamente, pugnar pelo desenvolvimento do sistema educativo, com ampla participação dos seus intervenientes, nos termos que um intrincado paradigma sócio-familiar, económico e cultural exige. Por isso, a sua competência técnica era descartável. Tinha a importância de um simples guardanapo de papel, com iguais efeitos perniciosos em termos ecológicos. O que era necessário, isso sim, era implementar um cortex definitivo e radical no orçamento para a educação, na prossecução de um objectivo que agora se comprova como um tremendo erro, que contribuiu significativamente para exacerbar o presente cenário de crise. Esse objectivo era a erradicação do, então, sacralizado défice.

Para isso, repito, não era necessária competência técnica e profundo conhecimento da área de tutela. Bastava manha, má fé, manipulação da opinião pública, arregimentação dos media, teimosia até mais não, a que muita basófia parola vulgarmente designa como "coragem política".

É evidente que este Monge pasma com a confrangedora ignorância demonstrada pela sociedade em geral acerca dos problemas, muitos e graves, com que se depara a educação no país e no mundo. Muitos encarregados de educação e outros parceiros com responsabilidade e interesse na temática opinam, de forma muito superficial e artificiosa, sobre a posição inauditamente firme dos professores no presente contexto. Pois muito bem. Paciência, persistência, costas largas e a dose certa de desdém fazem parte da resposta.

A presente conjuntura educativa é extremamente singular e requer uma abordagem delicada, abrangente e multidisciplinar. Mais do que semear ventos, desmotivações e crispações numa classe profissional cuja intervenção será decisiva na análise e resolução da vastidão e diversidade dos candentes problemas familiares, sociais e económicos que enformam a dita conjuntura, urge cativar e mobilizar professores. Em suma, reconhecer a importância de uma classe profissional cujo saber, experiência e competência não são descartáveis, ao contrário da ministra, numa estratégia de resolução.

Esta seria uma postura de bom senso, de sentido de Estado, de verdadeira defesa do interesse público. De facto, estas não são as qualidades da ministra da educação. Tão pouco do primeiro ministro que a sustém para além do razoável.

Por isso, importa continuar a luta. A bem da educação, do país e daqueles que não vêem, ou obstinadamente, não querem ver. Que alguém os ilumine.

E que se descarte quem de direito.

Palavra do Monge

sábado, novembro 15, 2008

TU ÉS

Men Fighting-Milburn Foster




Tu és arma, tu és lança,


Gume frio de uma espada,


Rumor de gente que avança,


Decidida e exaltada.




"





És ameaça aos senhores,


Aos donos deste poder,


Que julgavas defensores,


Convictos, do teu querer.




"





Possuis a alma arrojada,


Bebes força na razão,


És a voz legitimada,


Denunciadora da traição.









Palavra do Monge

sexta-feira, novembro 14, 2008

Ditadura em democracia-uma possibilidade






Há pessoas para quem a democracia é um constrangimento. São ditadores em potência e podem manifestá-lo na gestão das suas relações. É um problema para eles e para os próximos mas, em linguagem de bombeiro, constitui uma ocorrência circunscrita.



Quando eles assumem lugares na cúpula do poder, não há bombeiros que nos acudam. Tornam-se incendiários compulsivos, um perigo público que implica recrutamento de recursos em larga escala, para reparar e conter os danos da sua criminosa acção. Mais ainda, quando mais tardia for a reacção, maiores serão as consequências nefastas decorrentes.



Pois, os professores reagiram tarde. O direito à indignação, atempadamente exercido, pode constituir uma bóia de salvação, não para prosseguir pretensos e tão propalados interesses corporativos, mas para defender instituições fundamentais como a da escola pública, afirmar a sua boa prática em prol de uma educação de qualidade e contribuir para o desenvolvimento social.


Por conseguinte, seria desejável que, contra toda a propaganda difundida pelos media arregimentados pelo poder, se criasse um amplo movimento social, solidamente ancorado na prossecução do verdadeiro interesse público, desparasitado de conluios aparelhísticos ou carreiristas, estes sim, emanações de um corporativismo elitista pernicioso, de natureza político-partidária.




Uma maioria absoluta, tendo como protagonistas pessoas inescrupulosas,que não sustentam a sua acção em causas e princípios universalmente justos, que varreram da sua visão do mundo e da sociedade a ideologia orientadora, que omitiram da sua prática política a cartilha de valores que dão coesão e sentido ao partido a que pertencem, é uma amostra de como, sob a capa de uma pseudo-democracia, se dá corpo a uma ditadura de facto.



Deste modo, a Assembleia da República perde a sua razão de ser. A confrontação de ideias, o exercício do contraditório, transforma-se num diálogo de surdos, em face da inflexibilidade da maioria. Deste modo, propostas porventura válidas, passíveis de ser integradas em projectos normativos mais consensuais porque mais participados, são pura e simplesmente excluídas, num claro desrespeito pelos parceiros de bancada.



Esta estratégia assume-se como uma espada de dois gumes. A assunção unilateral de decisões responsabiliza apenas quem as toma. Neste caso, o descambar da estrutura económica e social do país é atribuível em exclusivo ao governo da maioria e ao partido de onde emergiu.



E que não venham a lume desculpas com a crise internacional. Muito antes dela se ter evidenciado, já este país estrebuchava em crise interna de gravidade evidente, com raízes em medidas desastrosas conducentes ao abrandamento económico, ao desemprego, ao trabalho precário, a bolsas de miséria e de exclusão, ao advento da criminalidade violenta, ao desagregar da família e outras mazelas que são do conhecimento geral.



Podem ser prepotentes e pouco ou nada democratas. Mas lá que são responsáveis são. E a punição surgirá, "mais tarde que cedo".



Palavras do Monge



domingo, novembro 09, 2008

PROFISSÃO DE FÉ


After Kimt - Erica Harney





Imagine-se! O Monge é socialista. Visceralmente socialista. As suas visão do mundo e consciência social foram forjadas em 74. Tinha o Monge 17 anos. Hoje tem 51 e as suas convicções mantêm-se mais inabaláveis que nunca. Porque comprovadas com o fluir das circunstâncias, analisadas com o estatuto de observador participante ou não.



Para além de socialista, o Monge já foi militante. Já não o é. Paradoxalmente, ou talvez não, deixou de sê-lo pouco tempo após a chegada ao poder do actual governo. A opção Sócrates afigurou-se-lhe, então, como a alternativa interna que se impunha face a uma deriva nacional e internacional preocupante, que pressupunha colagens a uma apregoada mudança, repleta de estereótipos que contrariavam as suas ideias quanto ao modelo de sociedade, que ele pretendia estável, justa, desenvolvida e participada.



Foi traído. Definitiva e irredutivelmente traído. E uma traição desta natureza não se perdoa. É humilhante, confrangedora. O vazio daí decorrente doeu, persistentemente. A ferida não cicatriza, imune a quaisquer acções terapêuticas.



O Monge continua socialista. Tanto o esboroar do Muro, como o colapso previsível, mas fragoroso, da teologia do mercado livre vieram comprovar as suas convicções. A sua confiança na natureza humana sempre foi limitada, suportada por uma análise antropológica que fez emergir os perigos da sua intrínseca animalidade. Contra genes e química inconsciente a luta é dura e as derrotas frequentes. A racionalidade cede demasiadas vezes à parcela instintiva do Homem.



A sua confiança nos políticos, na estrutura e funcionamento partidários ruiu. A sua crença nas potencialidades exclusivas do Estado Social acentuou-se. É preciso renovar a luta por uma Educação Pública de qualidade para todos, geradora de iguais oportunidades e propiciadora de recursos em quantidade e qualidade adequados; é preciso contrariar tendências direccionadas para um ensino exclusivo, elitista e segredador, de natureza privada e apologista de uma sociedade de castas.



Iguais posturas se devem manter relativamente à saúde, à justiça e ao sistema de redistribuição da riqueza. A história recente assim o exige. O Individualismo cego faliu, pouco tempo após o Comunismo castrador da diferença.



Pois, o Monge continua irredutivelmente socialista, estranhamente jovem e estranhamente actual na maneira do ver o Mundo. Irredutivelmente adverso àquele partido que já foi o seu, mas que incorporou na sua prática e no seu discurso, de forma irresponsável mas criminosamente intencional, as veleidades do dito Individualismo. Essa deriva deve ser punida, na justa proporção dos danos irreparáveis que causou e que continua a causar. A bem do verdadeiro desenvolvimento, aquele que assenta no primado da dignidade do Homem/Pessoa e Homem/Comunidade.



A propósito. O Monge esteve lá, naquela dos 120 000. Muito crítico, muito consciente e muito orgulhoso por ser professor.



Sim, nós vamos conseguir.



Palavra do Monge

domingo, outubro 26, 2008

A Respeito de maiorias absolutas




O nosso primeiro releva as virtudes da maioria absoluta. Justifica-o com a necessidade de decapitar, trinchar, esmagar o que designa por certos corporativismos. Alguns. Não todos.




O Monge assume-se como democrata. Por isso, respeita o princípio da livre associação. Prefere este termo ao de corporativismo. Este soa-lhe a terminologia azeda, ressuscitada a partir de sabe-se lá que estranhos desígnios. Mas vai usá-la, para facilitar a contextualização.




A génese de uma associação, profissional ou de qualquer outra natureza, emerge de uma necessidade. Por um lado, de auto-defesa contra certos ataques mais ou menos venenosos, mais ou menos dissimulados. Por outro, pressupõe o reconhecimento da sua importância social. Visa ainda assumir-se como elemento potenciador de uma resposta coesa a necessidades grupais. Pode, eventualmente, ter como objectivo a assunção do poder.




Neste sentido, eu atrever-me-ia a designar os partidos como corporações de indivíduos, enleados num cerne de princípios, valores e objectivos comuns, coniventes com um projecto de conquista de poder, visando a intervenção ou mudança social. São, indubitavelmente, pilares da democracia, desde que as suas acções sejam conformadas pela regulação constitucional, no respeito consciente pelo primado da separação de poderes.




Existem, evidentemente, associações proibidas, catalogadas com o exercício pernicioso de maiorias não legitimadas ou sustentadas por tentativas de legitimação nada transparentes e segregadoras, conforme comprovam evidências históricas.




O Monge considera as corporações partidárias como entidades essenciais ao exercício democrático do poder. No entanto, não esgotam o espectro das entidades corporativas com intervenção político-social. Deste modo, a emergência de outras corporações é salutar e desejável. Constituem alternativas cuja acção complementa a acção partidária e equilibra a intervenção política e social comunitária.




Podem ser um estorvo, particularmente a projectos de homogeneização e perpetuação do poder.


Assim sendo, são benvindas para a generalidade dos cidadãos e a sua acção é determinante para a dissuasão de tentativas mais ou menos totalitárias. É a vantagem do multilateralismo introduzido nas interacções político-sociais.




O nosso primeiro excluiu à partida o exercício desse multilateralismo, vulgarmente designado como negociação, concertação ou diálogo. O Monge compreende as suas relações promíscuas com a tal maioria absoluta, mas agradece aos tais corporativismos a sua acção preventiva ou reactiva.




Maiorias absolutas não. Escaldam que se fartam. Não se peça a gato escaldado que repita a experiência. O Monge já tem medo até da água fria. Há limites para o sadomasoquismo.




Palavra do Monge








quinta-feira, outubro 16, 2008

Lições da História




Li na Visão um artigo.

Esquece-me o nome do autor. Só sei que escreveu bem. Concordei, abismado com a raridade.

Recordou os momentos complicados da grande recessão. Recordou a emergência providencial de Keynes e dos seus princípios essenciais, relevando a importância do Estado e das suas funções essenciais:


- Papel regulador da sociedade, incluindo a economia;

- Garantia dos serviços básicos essenciais, sem discriminação;

- Investimento motor da economia, em contra-ciclo, gerando produtividade e emprego.


O Keynesianismo correspondeu a um período de bem estar e desenvolvimento. Bruscamente, surgiram os economistas da nova vaga. Keynes foi súbita e deliberadamente segregado. Apregoou-se a liberdade de mercado, a competitividade sem freio, o individualismo foi imagem de marca. Um desses economistas até viria a receber um prémio Nobel: Milton Friedman. Um desperdício que a história agora confirma.

Saliente-se que este governo embarcou, à margem da natureza do partido e dos seus princípios mais sagrados, nas ideias neoliberais. Contratos a prazo, precaridade, legislação laboral agressiva e parcial. Perda do poder de compra, despedimentos, desumanização do vínculo laboral. Estratégias de confronto com trabalhadores do Estado, crispação, arrogância, exclusão do diálogo, concertação nula. Pressão sobre as famílias, fragmentação dos laços familiares, separações, ausências, crianças encaixotadas. Stress, desequilíbrio físico e psicológico, ansiedade.

Abandono de projectos de vida, desesperança. Acréscimo de criminalidade violenta, surtos de choques interculturais.

É um panorama sombrio, com causa próxima no desempenho de um governo de maioria. Abaixo as maiorias. As maiorias e as mudanças propostas pelas maiorias. Não procuremos a mudança pela mudança. Queremos que ela constitua instrumento de progresso e bem-estar social. Estas mudanças não! Mais vale estar quedinho e caladinho. Não bulir.

Por tudo isto não culpemos a conjuntura internacional, um atestado arrasador do capitalismo neoliberal. Não. A crise interna já vem de há meia dúzia de anos atrás. De atitudes, acções e estratégias inapropriadas. Da falta de sentido de Estado da governança. Da intrusão da economia no poder político. Da falta de independência e de honestidade de quem governa.

Mas Deus é capaz de estar com os socráticos. Esta conjuntura deve ter sido encomendada em devido tempo. Aqui está uma boa desculpa. Para quem sofra de miopia, claro.


Palavra do Monge

terça-feira, outubro 07, 2008

A Crise Anunciada

Aroeira





Há uns tempos foi o comunismo. Desabou fragorosamente, com os aplausos daqueles que pretendiam a hegemonia mundial. Oportunistas militantes defenderam e difundiram teses que apontavam para uma via de sentido único, que se designou como capitalismo neoliberal. Bill Gates designa-o como capitalismo criativo, enaltecendo as potencialidades de intervenção solidária que tal sistema permite. De facto é uma espécie de sopa dos pobres, a prática da caridadezinha. São visões tacanhas do mundo e do Homem, encarado este como mero instrumento de produção. Diria eu que é um novo sistema esclavagista, que fornece a muitos apenas os meios de subsistência essenciais à produção de trabalho.


Desta vez foi o capitalismo, na sua versão bestificada e selvagem, sustentada pelo apelo ao individualismo egocêntrico, pelo princípio do estado mínimo e pelo dogmatismo de um mercado aberto e livre, sem peias nem reservas. Estoirou, como se previa. E todos pagam pela incompetência e má fé de alguns. Incompetência de governantes, gestores e empresários que pugnaram pela precaridade, mobilidade e instabilidade a vários níveis dos trabalhadores. Cegueira e parca inteligência de governantes e afins que não compreenderam que a estabilidade de emprego gera outras estabilidades e, por conseguinte, é factor de desenvolvimento. Cegueira destes protagonistas às lições da história, que aponta para crises cíclicas do capitalismo. É preciso destruir para desenvolver. Constatemos a falta de originalidade.


Governantes de vistas tolhidas, líderes e gestores incapazes de ver mais longe do que o seu umbigo. Que pegassem no exemplo de Ford. Estabilidade de emprego e salários dignos foram a sua estratégia para o desenvolvimento. Humanização nas relações laborais envolveram trabalhadores e empresário em objectivos comuns para benefício mútuo.


Mas gestores, empresários e governantes de hoje são exasperadamente banais e afinam pelo mesmo diapasão. Governantes sem perfil de homens de estado, profundamente implicados com sectores que não os da coisa pública ou do bem comum.


A crise esperada aí está. Quem a vai pagar é o mexilhão do costume. Mas o mexilhão que se mexa e assaque responsabilidades a quem de direito, ou de direita. O mundo não pode ficar o mesmo. E a solução é tão simples. Oportunidade de trabalho estável para todos. Salário digno desse nome. E o desenvolvimento virá por acréscimo, muito naturalmente.


Valha-nos Santa Luzia.


Palavra do Monge