
sexta-feira, setembro 29, 2006

sexta-feira, setembro 15, 2006

terça-feira, agosto 22, 2006
"Dreams" Rafael Gallardo-Maldita chuva!
segunda-feira, julho 24, 2006
" A viúva" , de Teixeira Lopes
Um passante mais regular condoer-se-ia, possivelmente, ao entrever uma figura franzina, trajada de negro, minúscula silhueta por entre o milheiral. Talvez pusesse em causa a força e a persistência que naquele corpo fragilizado de facto residiam.
Um passante conhecido não ousaria esboçar qualquer dúvida acerca da capacidade da artesã daquela obra-prima de sobrevivência. Saberia ler toda uma vida gravada nas rugas daquele rosto magro. Traduziria o brilho daquele olhar profundo de quem muito viveu e viu. Adivinharia as cicatrizes que lhe sulcavam a alma de combatente.
Aquela mulher grudava-se desesperadamente ao passado como forma de resistir à precariedade do presente. Não entendia este ritmo avassalador que a rodeava. Estava definitiva e irremediavelmente ajustada ao ritmo compassadamente marcado pela lua, pelos ciclos das estações, pelo nascer e pelo pôr-do-sol. Nunca o seu pulso fora feito refém de um qualquer relógio. Nunca se deixara subjugar por horários que não fossem os estritamente naturais.
Assumira o negrume da sua viuvez de forma dolorosa e irrevogável. Desta feita, não se tratava apenas de um afeiçoamento cultural, de um perfilhamento cego de costumes ancestrais. De facto, o sentimento de perda que se seguira à morte do seu companheiro atingira-a com uma violência de que nunca se recompusera. A cumplicidade que os unira fora o alento com que enfrentaram e transpuseram, indómitos, dificuldades inumeráveis. Quase sossobrou com a forçada e eterna ausência. Mas a lembrança de uma convivência de muitos anos fora também o elixir da sua recuperação.
Agarrara-se à terra com a força do desespero. E a terra, agradecida, correspondeu-lhe, arrancando-a a um torpor que, a continuar, seria letal. Curvou-se ainda mais sobre os torrões que desmanchava com a ligeireza de décadas de experiência lhe tinham ensinado.
Andar curvada tornara-se a sua postura habitual. Não era apenas o estigma do inexorável desfilar dos anos. Era uma exigência de reverência da terra-mãe. Era o pagamento exigido pela fecundidade. Era um tributo, uma penitência, mas também uma honra e um testemunho.
Mas aquela débil figura reerguia-se quase miraculosamente, deixando vislumbrar todo o carácter, toda a raiva explosiva que dela se apoderava e que deflagrava num estrondoso não a qualquer proposta de negócio daquela parcela de território que era o seu. Mesmo filhos e familiares próximos, que não compreendiam aquela apaixonada ligação a um solo que, para eles, só fazia sentido quando traduzido em números, deixaram de a importunar, de a seduzir com razões que ela jamais compreenderia. Ao fim e ao cabo aquele solo era a sua vida. Abdicar dele seria suicídio.
De modo que aquele local se tornara uma ilha e a viúva a sua exígua população. O passante regular e conhecido admira a sua coragem e a sua persistência. Compreende a sua atitude e o seu modo de estar perante a vida, as suas alegrias e as suas adversidades. Torce para que tal coerência escorrace a superficialidade, o artifício, o vil interesse que se constitui como imagem de marca desta sociedade que idolatra o efémero. Torce para que esta fortaleza continue a resistir ao terrível assédio com pertinácia equivalente.
Palavra do Monge.
quinta-feira, julho 20, 2006
O CERCO
MilletMuitos chamavam-lhe oásis, a maioria um anacronismo.
De facto, aquele local era uma espécie de bolha, enquistada no tempo, um exemplo raro de resistência às arremetidas vigorosas da urbe.
Tratava-se de uma quinta. Uma área razoável dividida com rigor geométrico por fiadas de videiras rasteiras. Numa das pontas, a menos produtiva, como outrora convinha, quase desprovida de manta morta, elevava-se um barracão robusto, de paredes grossas em pedra granítica, simbólico bastião de anteriores e heróicas lides de sucessivas gerações de lavradores anónimos mas de obra feita.
Como abertura, apenas a porta, de chapa ondulada e ocre, a única concessão detectável ao assédio inovador do presente.
À sua volta brotavam fantasmagóricas gruas, esguias e arrogantes, no cerne de uma inusitada agitação. Máquinas famintas rugiam, ensurdecedoras, escalavrando impiedosamente o solo, deixando nele as feridas do seu afã destruidor.
E, num prazo extraordinariamente curto, mesmo tomando como padrão a vã efemeridade humana, aquele local ficou cercado. Rodeado de edificações de traçado variável, aparentemente sem vínculo congruente, aquele resquício de um qualquer passado ali jaz, indiferente à sua inquestionável solidão.
Um passante menos assíduo surpreender-se-ia, pois aqueles terrenos não apresentavam o desmazelo característico daqueloutros votados a um impiedoso abandono, invadidos pelo torvelinho desordenado de silvados apostados em comprovar os seus atributos competitivos no jogo desregrado da luta pela vida.
Aquele solo e a vida que ele gerava reflectiam a ordem imposta por mão humana, rara mas sábia. De modo que continuava a apresentar as mutações que o ciclo agrícola exige. Vides podadas a seu tempo, bandeiras do milheiral erguidas em ode à labuta do Homem e à pujança da Natureza.
segunda-feira, julho 10, 2006
segunda-feira, junho 12, 2006
terça-feira, maio 30, 2006
segunda-feira, maio 15, 2006
Palavra do Monge
terça-feira, abril 25, 2006
Vinte e cinco alvoradas
Passadas do mês fecundo,
Outras tantas badaladas
Que nos abriram ao mundo.
Vinte e cinco esperanças,
Vezes mil ou talvez mais,
Foram outras tantas lanchas
Que largaram do seu cais.
Vinte e cinco mil grilhetas
Por um sonho se quebraram.
Vinte e cinco mil estafetas
Por um sonho se esfalfaram.
Vinte e cinco mil promessas
Vezes mil ou talvez mais,
Viraram o mundo às avessas,
Mudaram do tempo os sinais.
Vinte e cinco anos se foram
E ainda um pouco mais,
Mil promessas se apagaram
Ou talvez bastante mais.
Vinte e cinco mil vilões,
Ou um pouco mais talvez,
Querem repor os grilhões,
Apagar o sonho de vez.
Cada qual um guardião
Do sonho que Abril gerou
Férreo, não largue mão,
Do que Abril nos legou.
Palavra do Monge
terça-feira, abril 04, 2006
Opa, opa e mais opa! Eh lá... Desta vez o Monge ultrapassou os limites. Começar um enunciado com uma praga não são modos de uma pessoa com o seu estatuto, nem um exemplo para os parcos leitores. Mas reconsideremos. O Ti Belmiro também está a extrasavar os seus limites. Diria mais, extravasa as suas competências e imiscui os seus considerados doutos saberes em áreas de que não percebe patavina. Melhor dizendo, meteu o seu valioso nariz onde não era chamado. Pasmado, o Monge diria que sofre do síndroma AVC (Aquisição Verdadeiramente Catastrófica) - para o país, claro, para a PT em particular e para os trabalhadores da PT , ainda mais particularmente. Pois a referida personalidade atreveu-se a criticar o sistema educativo em termos menos elogiosos. Como está na moda, aliás. Vá lá! Que um comum cidadão, menos imune aos assaltos insidiosos dos media, profira tais insinuações, ainda se aceita, embora tal não o isente de uma proporcional e exemplar penitência. Agora o Ti Belmiro, uma das personalidades ilustres, um conselheiro muito requisitado de governantes e similares, devia mostrar mais contenção. Que percebe ele do estado da Educação? Tanto como a correspondente ministra? Talvez menos, o que, tendo em conta o termo de comparação, é menos que nada. Mas o Monge percebe. Percebe que aquilo que o Ti Belmiro quer são trabalhadores adestrados e amestrados. Devem ser móveis, polivalentes e aceitar a precaridade sem recalcitrar. Nada de espírito crítico, que isso só estorva. Os chefes que pensem e julguem. Os trabalhadores não foram feitos para isso. Nada de solidariedade, que isso contende fragorosamente com a ambiência competitiva instalada. Nada de valores, que isso é um mito pouco conveniente. A não ser que sejam os valores perfilhados pelo ilustre dito. O Monge pasma... e cisma. Então andou-se tanto tempo a apostar na educação para os valores, na sua contribuição para uma sociedade mais justa, mais equitativa, mais fraterna e mais solidária. Tanto tempo a apostar no homem com espírito crítico, dotado de autonomia de pensamento, de julgamento e de acção. Tanto tempo a apostar em cidadãos intervenientes e responsáveis. Opa, opa e mais opa! Perdoem-me a praga. Mas o Monge penitenciar-se-á na devida proporção, o que quer dizer... nada. Palavra do Monge
sábado, março 11, 2006
quarta-feira, fevereiro 15, 2006
O monge constata com preocupação que este mundo é de loucos. Melhor dizendo, este mundo é dos loucos. Necessariamente, quer do lado das ditas e reditas consumadas democracias, quer do lado das presumidas teocracias, emergem os mesmos sintomas de demência crónica e progressiva. No entender do Monge, ascenderam ao poder pessoas que a ele não deveriam ascender. No mundo ocidental, profundamente influenciado pela cultura anglo-saxónica, tal situação é estranha e dificilmente compreensível. Pois que é feito da democracia, do direito de livre escolha e da responsabilidade que lhe está inerente? Teoricamente, deveriam ser escolhidos os melhores, os mais aptos, os mais capazes para conduzir os nossos destinos. No entanto, errámos indesculpavelmente. A nossa consciência crítica esboroou-se perante a demagogia, o populismo, carreados por uma comunicação social desprovida de consciência ética e de responsabilidade política e social. Por uma comunicação social infiltrada pelo corrosivo poder económico. Por feitores de opinião ao serviço de inconfessáveis interesses que não são públicos e, por isso, não pugnam pelo interesse colectivo. Por isso estamos orfãos, orfãos de pessoas credíveis, impolutas, de perfis devidamente alicerçados na tolerância, na ponderação, no bom senso. Qualidades que permitem dizer não, quando a maioria diz sim. Qualidades que recomendam diálogo, quando as palavras se tornam lâminas letais. Qualidades que edificam a tolerância, quando cruzadas e guerras santas são propagandeadas.
A comunicação social está em fanicos, descredibilizou-se. À boa imagem de um capitalismo selvagem, sem peias, em que a usura se espraia irremediavelmente, pegajosa, oleosa como o crude, vive obcecada pelos shares das vendas, das audiências, mandando às malvas os filtros deontológicos. Uiva clamando pela liberdade de expressão, arredada das profundas responsabilidades que lhe estão subjacentes. Contende fragorosamente com outros direitos humanos, que subalterniza.
E aí temos a tão indesejada contenda civilizacional. Esta escalada de intolerância, alimentada por actos impensados de gente com grande visibilidade mediática, que destrói todo um percurso ecuménico de luta pela paz, dura e prolongadamente erigido, vai transformar-se num disputa olho por olho, dente por dente, num esboroar de esperanças por um mundo mais fraterno, no respeito pelas diferenças e pela mais valia que dessas diferenças necessariamente emerge.
Pessoas de bom senso precisam-se. Devem assumir o protagonismo neste tempo de crise, em que cada acto, cada palavra, devem ser maduramente pensados.
O preconceito deve ser, numa perspectiva metodológica, recolocado nos sotãos da nossa consciência colectiva, sem bolas de naftalina, a esmiuçar-se em pó. O extremismo deverá ser considerado postura não grata, o diálogo intercultural preservado e alimentado.
E que se calem os discursos virulentos, tresandando a mofo e de ideias curtas, de comentadores e políticos desclassificados. Que se transfigurem definitivamente em personagens de comédia de um qualquer cinema mudo. Talvez assim possamos esboçar um ligeiro sorriso ou até largar uma incontida gargalhada.
Palavra do Monge.
quarta-feira, janeiro 25, 2006
PÉS NA TERRA
terça-feira, janeiro 24, 2006
quinta-feira, janeiro 12, 2006
sexta-feira, janeiro 06, 2006
quarta-feira, dezembro 28, 2005
1- Que os Estados Unidos vão dar uma volta ao bilhar grande e gostem;
2 - Que o governo peça um licença sem vencimento pelo prazo do mandato que lhe resta, a gozar no nordeste brasileiro ou em qualquer outro destino, à escolha, sem restrições;
3- Que deixem os professores educar;
4- Que deixem os juízes julgar;
5- Que deixem os médicos e outros profissionais tratar-nos da saúde (sem ironia);
6- Que os economistas trabalhem mais e falem menos;
7- Que os jornalistas sigam o exemplo dos Estados Unidos;
8- Que os comentadores padeçam, oportunamente, de lapsos de voz, sem comprimidos à mão;
9- Que se lixe o défice;
10-Que surjam verdadeiros empresários na nossa praça;
11- Que se deslocalizem todas as multinacionais para a Ilha da Páscoa, mas antes dela;
12-Que se ofereça o mercado às nossas pequenas e médias empresas, quanto mais pequenas e médias melhor.
Um sonho do Monge
