sexta-feira, setembro 29, 2006


Hipocrisia, mentira e manipulação
Numa escola, algures, escolhida rigorosamente a dedo, uma mulher, com gestos estudados e ensaiados, baixa-se ao nível de uma criança e lança-lhe palavras ensaiadas, escolhidas rigorosamente a dedo. A criança responde-lhe, naquela linguagem simples, directa, não ensaiada nem escolhida rigorosamente a dedo.
A mulher era a ministra, a da educação. Em casa, espectadores mais sensíveis levam o dedo, dissimuladamente, ao canto do olho e esborracham uma lágrima teimosa e indiscreta.
Mais tarde, num programa de televisão com o nome errado, uma mulher, uma jornalista, moderadora habitual, e outros protagonistas, escolhidos rigorosamente a dedo, bem ensaiados, sorrisos sardónicos estampados no rosto, olhos fugidios, falsos a léguas, debitam medidas, num discurso de via única. A mulher era a ministra, a da educação. Escutam-se os prós.
Uma revista, num lance estudado, ensaiado, escolhido rigorosamente a dedo, edita um anexo. Era um estudo, pretensamente objectivo, sobre o estado da educação. Esse estudo estava pejado de juizos de valor que, como sabemos não abonam em favor da pretensa objectividade, metodologicamente avessos que são ao rigor e racionalidade exigíveis.
Os exemplos multiplicam-se, num corropio, pelos media da nossa praça, travestidos de arautos da desgraça, propagandeando os "números da vergonha".
Entretanto, esses arautos, falsos como judas, com soldo de trinta dinheiros ou mais, aplaudem um início do ano escolar exemplar.
Entretanto, professores são pagos, pelas autarquias, a cinco euros à hora, com deslocações incluídas. As ditas autarquias teriam recebido 15 euros por docente e amealhado o sobrante.
Entretanto milhares de alunos foram sequestrados dos seus locais de origem, privados das suas referências, do almoço com os seus progenitores.
Entretanto milhares de alunos vieram empanturrar escolas e salas de algures. Obras, nem vê-las, só prometidas. Segurança e apoios tolhidos, precários.
Entretanto, cantinas são encerradas. As crianças comem ração por medida, sem tempo para apoio, para uma palavra de estímulo, para uma carícia, para um sorriso ou mesmo uma gargalhada. São números, submetidos aqueloutra prioridade de outros números, os do malfadado e persistente défice.
Entretanto, milhares de alunos são transportados, não nas condições apregoadas pelos já citados arautos a soldo, o dos trinta dinheiros, ou mais. Tentarão retomar, sentados, enrolados sobre si mesmos, os sonhos desapiedadamente interrompidos.
Entretanto, milhares de pais, os que esborracharam, dissimuladamente, uma lágrima teimosa no canto do olho, aplaudem, calorosamente, a clausura dos filhos.
Palavra do Monge

sexta-feira, setembro 15, 2006


pas de deux
CHristian Kruger


CAPRICHOS
O Monge não podia deixar de apreciar a caprichosa afirmação de Marques Mendes, salvo erro, relativamente a uma obscura parceria para um dito pacto de regime relativamente à reforma da Segurança Social. O regime crê-se espartano, pois limita-se a um maquiavélico ressurgimento de um Bloco Central que, de facto, já não é central mas alhinhadinho à dextra. O Monge desconfia, como é seu timbre, de pactos de regime em que os protagonistas são apenas dois partidos. O Monge solidariza-se com os demais partidos com sede parlamentar que, presumivelmente, não serão tidos nem achados na elaboração do Pacto. De facto, um pacto de regime deve ter uma ampla participação para obter legitimidade. Deveria ser divulgado e comentado num cenário de participação e transparência democráticas. Tal coisa não aconteceu, como se sabe, naqueloutro pacto, o da Reforma da Justiça. Tudo nele foi cozinhado, temperado e recheado em ambiente de alcova, a bom recato da opinião pública. Muito pouco democrático, embora reconheçamos que a democracia foi chão que já deu uvas e que, presentemente, não vai mais além de uma palavra vã, muito útil para discursos e práticas demagógicas de credibilidade nula.
Pois a saborosa afirmação, que citamos de cor, foi a seguinte:... que Sócrates não se deixe influenciar por "caprichos ideológicos de esquerda". Tal afirmação não é abonatória para o dito Marques Mendes, por vários motivos, a saber:
-Subentende, errónea e descaradamente, que a ideologia é um capricho e, consequentemente, irrelevante na prática política.
-Que Sócrates é caprichoso, consequentemente volúvel na sua postura política, quando, na verdade, é um estratega obstinado e com rumo, infelizmente, claramente definido.
-Que Sócrates é de esquerda. Se tal for verdade, onde posicionaremos geometricamente a direita? Cá está um problema que, garantiremos, será um quebra cabeças para matemáticos credenciados.
-Que Marques Mendes em nada contribuirá para a recuperação da nossa tísica democracia. É do género : tu matas, eu esfolo e fico com os ossos.
Com uma gargalhadita muito amarela e pouco audível, despeço-me por ora. Palavra do Monge.

terça-feira, agosto 22, 2006

O VENDEDOR DE SONHOS
"Dreams" Rafael Gallardo
-Que tempo de um raio!-reagiu ele, intempestivamente, ao dilúvio que desabava na avenida.
Aborrecia-se profundamente com o exílio forçado, ali, junto à escadaria que acedia ao casino. Uma escadaria larga, imponente, faustosa. Um acesso incerto ao jogo da sorte ou do azar. Uma subida feita de sonho e esperança, talvez a última. E de muitas e penosas descidas.
Pensando bem, seria um local estratégico para um cauteleiro. Para que procurar a sorte mais acima, se ele a oferecia muito mais abaixo e a preço de saldo.
Paradoxalmente, poucos respondiam à sua proposta. Preferiam a ambiência, o sabor a aventura e risco, o ruído, a vertigem mais perto do céu.
-Que tempo lixado!
A humidade colava-se, incómoda, ao frio lagedo do átrio. Estirado no chão, ele conferia as cautelas mais uma vez. Era fim de tarde e ele ainda não vendera nenhuma. Dia azarado.
Não é que isso lhe importasse grande coisa. Convivia com o azar há tanto tempo que se tinham tornado inseparáveis.
-Vou tentar arranjar uns cartões. Darão jeito, à noite.-E ela saiu à procura, ligeira, quase uma sombra.
Afinal era o que eles eram, duas sombras. Ele já não se lembrava de quando nem de onde a conhecera. Algures num daqueles recantos mais sombrios da cidade, locais demarcados dos esquecidos da fortuna. Tão pouco sabia o seu nome. Tão pouco lho perguntara. No entanto, tornaram-se parceiros e cúmplices naquele simulacro de vida. O passado, tacitamente, não existia. O futuro era para eles de uma clareza invulgar, imune a projectos ou expectativas.
Por isso viviam apenas o presente. Um momento de cada vez. Variavam de poiso, quando lhes apetecia. Viviam das sobras, nas franjas de uma comunidade selectivamente cega, mas não menos solitária.
-Maldita chuva!
Odiava aquelas gotas grossas e frias que lhe coartavam a liberdade. A liberdade de apregoar a sorte para aqueles que a podiam e queriam comprar. Já transportara entre mãos quantias fabulosas, que alteraram drasticamente vidas de desconhecidos. Encolheu os ombros, indiferente.
Sentia-se livre, no seu sentido literal e absoluto. Não obedecia a regras. Não aceitava compromissos. Não fazia concessões à vida. Vivia, pura e simplesmente.
Olhava, enfastiado, para a tarde inesperadamente brumosa daquele Agosto.
Afinal, o cartão seria benvindo.

segunda-feira, julho 24, 2006

O CERCO
Parte II


" A viúva" , de Teixeira Lopes

Um passante mais regular condoer-se-ia, possivelmente, ao entrever uma figura franzina, trajada de negro, minúscula silhueta por entre o milheiral. Talvez pusesse em causa a força e a persistência que naquele corpo fragilizado de facto residiam.
Um passante conhecido não ousaria esboçar qualquer dúvida acerca da capacidade da artesã daquela obra-prima de sobrevivência. Saberia ler toda uma vida gravada nas rugas daquele rosto magro. Traduziria o brilho daquele olhar profundo de quem muito viveu e viu. Adivinharia as cicatrizes que lhe sulcavam a alma de combatente.
Aquela mulher grudava-se desesperadamente ao passado como forma de resistir à precariedade do presente. Não entendia este ritmo avassalador que a rodeava. Estava definitiva e irremediavelmente ajustada ao ritmo compassadamente marcado pela lua, pelos ciclos das estações, pelo nascer e pelo pôr-do-sol. Nunca o seu pulso fora feito refém de um qualquer relógio. Nunca se deixara subjugar por horários que não fossem os estritamente naturais.
Assumira o negrume da sua viuvez de forma dolorosa e irrevogável. Desta feita, não se tratava apenas de um afeiçoamento cultural, de um perfilhamento cego de costumes ancestrais. De facto, o sentimento de perda que se seguira à morte do seu companheiro atingira-a com uma violência de que nunca se recompusera. A cumplicidade que os unira fora o alento com que enfrentaram e transpuseram, indómitos, dificuldades inumeráveis. Quase sossobrou com a forçada e eterna ausência. Mas a lembrança de uma convivência de muitos anos fora também o elixir da sua recuperação.
Agarrara-se à terra com a força do desespero. E a terra, agradecida, correspondeu-lhe, arrancando-a a um torpor que, a continuar, seria letal. Curvou-se ainda mais sobre os torrões que desmanchava com a ligeireza de décadas de experiência lhe tinham ensinado.
Andar curvada tornara-se a sua postura habitual. Não era apenas o estigma do inexorável desfilar dos anos. Era uma exigência de reverência da terra-mãe. Era o pagamento exigido pela fecundidade. Era um tributo, uma penitência, mas também uma honra e um testemunho.
Mas aquela débil figura reerguia-se quase miraculosamente, deixando vislumbrar todo o carácter, toda a raiva explosiva que dela se apoderava e que deflagrava num estrondoso não a qualquer proposta de negócio daquela parcela de território que era o seu. Mesmo filhos e familiares próximos, que não compreendiam aquela apaixonada ligação a um solo que, para eles, só fazia sentido quando traduzido em números, deixaram de a importunar, de a seduzir com razões que ela jamais compreenderia. Ao fim e ao cabo aquele solo era a sua vida. Abdicar dele seria suicídio.
De modo que aquele local se tornara uma ilha e a viúva a sua exígua população. O passante regular e conhecido admira a sua coragem e a sua persistência. Compreende a sua atitude e o seu modo de estar perante a vida, as suas alegrias e as suas adversidades. Torce para que tal coerência escorrace a superficialidade, o artifício, o vil interesse que se constitui como imagem de marca desta sociedade que idolatra o efémero. Torce para que esta fortaleza continue a resistir ao terrível assédio com pertinácia equivalente.
Palavra do Monge.

quinta-feira, julho 20, 2006


O CERCO
Parte I

Millet


Muitos chamavam-lhe oásis, a maioria um anacronismo.
De facto, aquele local era uma espécie de bolha, enquistada no tempo, um exemplo raro de resistência às arremetidas vigorosas da urbe.
Tratava-se de uma quinta. Uma área razoável dividida com rigor geométrico por fiadas de videiras rasteiras. Numa das pontas, a menos produtiva, como outrora convinha, quase desprovida de manta morta, elevava-se um barracão robusto, de paredes grossas em pedra granítica, simbólico bastião de anteriores e heróicas lides de sucessivas gerações de lavradores anónimos mas de obra feita.
Como abertura, apenas a porta, de chapa ondulada e ocre, a única concessão detectável ao assédio inovador do presente.
À sua volta brotavam fantasmagóricas gruas, esguias e arrogantes, no cerne de uma inusitada agitação. Máquinas famintas rugiam, ensurdecedoras, escalavrando impiedosamente o solo, deixando nele as feridas do seu afã destruidor.
E, num prazo extraordinariamente curto, mesmo tomando como padrão a vã efemeridade humana, aquele local ficou cercado. Rodeado de edificações de traçado variável, aparentemente sem vínculo congruente, aquele resquício de um qualquer passado ali jaz, indiferente à sua inquestionável solidão.
Um passante menos assíduo surpreender-se-ia, pois aqueles terrenos não apresentavam o desmazelo característico daqueloutros votados a um impiedoso abandono, invadidos pelo torvelinho desordenado de silvados apostados em comprovar os seus atributos competitivos no jogo desregrado da luta pela vida.
Aquele solo e a vida que ele gerava reflectiam a ordem imposta por mão humana, rara mas sábia. De modo que continuava a apresentar as mutações que o ciclo agrícola exige. Vides podadas a seu tempo, bandeiras do milheiral erguidas em ode à labuta do Homem e à pujança da Natureza.
O Monge

segunda-feira, julho 10, 2006

A QUADRATURA DO CÍRCULO
"Freitas do Amaral era um ministro quadrado, Luis Amado e Severiano Teixeira são ministros redondos"
Pacheco Pereira, citado na Visão
O Monge não vai fazer a mínima tentativa de contextualizar a citação estranhamente geométrica de Pacheco Pereira. Reconhece que não viajou até à fonte de informação para sacudir a estranheza que lhe impregnou a mente após a leitura de tão curta expressão. De forma que vai tentar fazer um exercício de descodificação, partindo dos perfis intuídos dos protagonistas activos e passivos deste incidente.
Presume que Pacheco Pereira não cometeria a descortesia de conectar tal expressão com a aparência física dos visados. O monge omite vigorosamente tal possibilidade que, no seu entender, seria altamente pejorativa, tanto para Freitas do Amaral, como para os seus sucessores, como para o próprio Pacheco Pereira ou mesmo para o próprio Monge.
Erradicando do nosso exercício a aparência física de cada qual, afinal de conta um pormenor insignificante, resta-nos enveredar pela envolvente psicológica de toda a questão. Será que PP quis afirmar que Freitas do Amaral era um governante teimoso, inflexível, difícil de demover das suas decisões? E que, por consequência, o seu percursor, mais macio, mais maleável, detinha as capacidades inerentes a funções diplomáticas?
O Monge inclina-se para esta última hipótese e tira algumas conclusões. Este governo não admitia duas individualidades quadradas no seu elenco: Freitas e Sócrates. Para que funcione, só necessita de um quadrado e muitos redondinhos, que voguem sem recalcitrar ao sabor do quadrado sopro socrático.
O Monge sente-se frustrado. De facto, acha que o qualificativo quadrado de Freitas era sinónimo de qualificação. Acha que as posições por ele tomadas foram corajosas, oportunas, justas e uma marca de carácter. O governo ficou, portanto, mais pobre mas, reconheçamos, muito mais maneável, o que para o Monge é muito mau sinal.
Deus nos livre dos redondinhos. São um perigo neste trânsito político infernal. Palavra do Monge.

segunda-feira, junho 12, 2006

Aquele sorriso
O Monge sempre desconfiou daquele sorriso. Não é um sorriso franco, aberto, leal. É mais um esgar, uma necessidade amarelada, talvez o espelhar de uma superioridade auto assumida mas que, assim o sendo, talvez atinja foros de patologia. Estou a falar do senhor Vitorino e do seu eterno sorriso. São inseparáveis. Para onde vai um, vai o outro. Mas são dispensáveis. Tanto se passa sem um como sem o outro. Melhor ainda, todos seriamos bem mais felizes sem o massacre mediático de um e do outro.
De resto, o sorriso do senhor Vitorino é um espelho de um partido que já o foi mas já não é. É uma frustração, uma traição, um desaforo, o esfrangalhar de esperanças acumuladas, uma contaminação, um vírus, a necessidade de uma quarentena. O socialismo esvaiu-se. A força concentrada do sangue de muitos feneceu após súbita e irreversível hemorragia. O partido gangrenou, descaracterizou-se. Ergueu, sob a sua própria lavra, uma barreira entre simpatizantes e militantes. A ideologia morreu.
O governo, emanência natural do partido, atenta sôfrega e repetidamente contra o Estado, ao qual pertence e que devia preservar. Intencionalmente e com uma descarada má fé, vai retalhando com requintes sádicos a estrutura que contribuiu com sublime eficácia para a redução significativa da mortalidade infantil, para o aumento da esperança de vida, para o apoio e prevenção da doença. O mesmo faz com um sistema educativo que aguentou, mau grado iniciativas avulsas e desajustadas de consecutivos governos, com a massificação do ensino, sem correspondente aumento de recursos. E tudo graças à abnegada e anónima acção dos professores que agora estão sob fogo cerrado da ministra, dos pais e da sanha oportunista de comentadores sedentos de polémica, que se pronunciam de forma irresponsável e leviana sobre assuntos que não dominam. São as gralhas dos media, entre os quais o Monge inclui um dito Sousa Tavares e um outro Pedro Norton, a par com o dito senhor Vitorino.
Todos têm em comum o pronunciamento nu e cru a desfavor de um dos sindicatos mais representativo dos professores: a Fenprof. Esse pronunciamento indicia um desrespeito inaceitável por estruturas que constituem pilares da democracia e instrumentos contra medidas atentórias de direitos fundamentais dos trabalhadores. Quem diz mal dos sindicatos diz mal dos professores. Quem diz mal dos sindicatos pronuncia-se contra a democracia. Senhor Vitorino, Senhor Norton, senhor Tavares, é óbvio que lançastes a democracia às urtigas. E sem qualquer remoer de consciência.
Duas das relevantes figuras mencionadas pronuncionaram-se sem sombra de dúvida a favor da avaliação dos professores pelos Encarregados de Educação. Uma medida ridícula só explicável pela instrínseca má intenção de quem a toma. Tenho muita pena mas, de facto, os pais não reúnem condições para tal. A grande maioria disvincula-se intencionalmente do acompanhamento dos seus educandos e da participação no processo educativo. O Monge chega a classificar os pais. Deste modo haverá encarregados da não educação e da má educação, qual deles o pior perfil. Mesmo sem querer, coagidos pela pressão de todo um mundo laboral cada vez mais darwinista, os pais vêem-se inapelavelmente afastados da educação dos seus filhos. E, senhor Vitorino e demais pares, a culpa é da sociedade que todos nós ajudámos a criar. Um exemplo de má arquitectura social, a qual a história se encarregará de julgar.
Face a estas agressões, facetas maquiavélicas deste governo de infiltrados, só se esperam reacções na justa medida. E elas ocorrerão naturalmente. É pena, o país merecia melhor mas... é capaz de não haver. Vade retro. Ao que isto chegou! Palavra do Monge.

terça-feira, maio 30, 2006

DESPUDOR, DESONESTIDADE, MANIPULAÇÃO E UMA GRANDE LATA!
A incompetência é uma espécie de arma de destruição massiva. Quando ela provém de um governante é um crime. Quando a incompetência se alia à prepotência é um crime de lesa liberdade. Quando a incompetência se alia à prepotência e à manipulação intencional e inescrupulosa é um crime contra a sociedade.
O Monge assume-se como acusador. A ré, é sem sombras de dúvidas e sem sombras na consciência do magistrado, a Ministra da Educação.
A dita senhora acaba de caluniar infamemente uma classe profissional que, apesar das sucessivas incompetências dos sucessivos governos, tem sustentado de forma honrosa mas sofrida todo um sistema educativo público: os professores.
Profere mentiras com laivos de querubim. Cúmplice de uma sanha vingativa contra a sacralidade do Estado nos seus objectivos de pugnar por uma sociedade mais justa, assaca responsabilidades a quem não as pode ter. E sacode com tiques de grande senhora as mascarras da mais profunda ignorância.
Porventura, quem vem protegendo com progressivo descaro o ensino privado? Quem vem sonegando a autonomia às escolas públicas? Quem vem introduzindo a rigidez burocrática nos actos, relações e processos do sistema educativo. O Chalana? O Castelo Branco? Não, sucessivos ministérios da mais profunda e insana incompetência, incluindo esta cereja em cima do bolo que constitui o da dita senhora ministra.
Argumenta-se que as individualidades, aburguesadas através de não sei que estranhas manigâncias, optam por escolas privadas, bem equipadas, com disciplina q.b., com crivo de exclusão à entrada. Pudera, essa opção foi-lhes dada de bandeja. A princípio dissimuladamente, depois às claras, desavergonhadamente.
Pois o Monge alvitra, contra acções de excepção, reacções de excepção. E com resultados garantidos. Acabe-se já com o ensino privado, coito dos privilegiados da fortuna, espelho exemplar de uma desigualdade escandalosa de oportunidades. Os resultados vêm-nos de leste. Ensino público, investimento maciço, qualificações à altura para todos, sem segregação. Abaixo os nichos elitistas, geradores da mais avassaladora exclusão.
Pois o Monge alvitra, contra decisões impensadas emanescentes do MIN (Governo dos Mercenários Infiltrados Neoliberais) uma cota de responsabilização proporcional, avaliada a partir de uma auditoria externa, credível e imparcial. Exclui-se da sua constituição, obviamente, uma assembleia da republica na sua maioria subserviente, amorfa e comprometida e um presidente da república, que vai falar de inclusão social aos chaparros do Pulo do Lobo.
O Monge anexa ainda uma moção do mais completo desprezo por comentaristas que vendem palavras de circunstância a pedido e a peso, em ouro. Não se surpreende, pois, com a obesidade crescente que deles se vai apoderando. Afinal, sempre é o seu trabalho. É um novo tropismo: o da engorda compulsiva.
Quanto à ministra, submetida a julgado e à revelia, que seja colocada, com os seus apaniguados, para lá da fronteira e num exílio perpétuo. Com urgência. A bem da Nação. Palavra do Monge.

segunda-feira, maio 15, 2006

LEILÃO XXI
É entrar, é entrar, irmãos! Chegámos ao grande leilão do consumismo. Consumam à velocidade do TGV. Consumam desenfreadamente, pois uma vida é um arroto, um suspiro, um ai que já lá vai. Consumam compulsivamente, pois a vida é um jogo e também o seu peão. Ponham a vossa vida em questão pela quantia simbólica de um cêntimo. Coloquem a vossa vida à cintura, mascarada de um dúzia de granadas e vinte vidas inocentes. Já lá vão 20 e mais uma.
Consumam riscos, perigos, emoções. Consumam almas, intelectos, corações. Consumam rápida e efemeramente. Consumam namorados, amigos, maridos, relações. Consumam razões e paixões.
É entrar, é entrar, irmãos! Sejam benvindos ao grande leilão do nosso tempo. Consumam ideias e ideais, ideologias e outras que tais. Consumam políticos e políticas à velocidade do TGV. Não pensem, ajam. Não argumentem, joguem. Pensar é pecado, pensar é letal, jogar é legal. Consumam comentários, mastiguem jornais, vomitem sem pejo, desavergonhadamente, as ideias dos tais.
Este leilão tem a voracidade de um inferno à desfilada. É entrar, é entrar, irmãos! Dispam-se de escrúpulos e da vossa consciência. Mastiguem a ausência de consciência dos tais. E vomitem, vomitem, pois a vida é uma procela, um tufão, um furacão. Consumam o travo amargo, mas intenso, da montanha russa. E vomitem.
Consumam telenovelas, documentários, telemóveis. Consumam tatuagens, conversas encriptadas, padronizadas, cruas e nuas. Consumam toques, mensagens e promoções. Consumam, irmãos, consumam... E depois parem para pensar. Afinal, ainda têm os 65 anos à vossa frente.

Palavra do Monge

terça-feira, abril 25, 2006

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VINTE E CINCO ALVORADAS



Vinte e cinco alvoradas
Passadas do mês fecundo,
Outras tantas badaladas
Que nos abriram ao mundo.

Vinte e cinco esperanças,
Vezes mil ou talvez mais,
Foram outras tantas lanchas
Que largaram do seu cais.

Vinte e cinco mil grilhetas
Por um sonho se quebraram.
Vinte e cinco mil estafetas
Por um sonho se esfalfaram.

Vinte e cinco mil promessas
Vezes mil ou talvez mais,
Viraram o mundo às avessas,
Mudaram do tempo os sinais.

Vinte e cinco anos se foram
E ainda um pouco mais,
Mil promessas se apagaram
Ou talvez bastante mais.

Vinte e cinco mil vilões,
Ou um pouco mais talvez,
Querem repor os grilhões,
Apagar o sonho de vez.


Cada qual um guardião
Do sonho que Abril gerou
Férreo, não largue mão,
Do que Abril nos legou.

Palavra do Monge

terça-feira, abril 04, 2006

OPA!


Opa, opa e mais opa! Eh lá... Desta vez o Monge ultrapassou os limites. Começar um enunciado com uma praga não são modos de uma pessoa com o seu estatuto, nem um exemplo para os parcos leitores. Mas reconsideremos. O Ti Belmiro também está a extrasavar os seus limites. Diria mais, extravasa as suas competências e imiscui os seus considerados doutos saberes em áreas de que não percebe patavina. Melhor dizendo, meteu o seu valioso nariz onde não era chamado. Pasmado, o Monge diria que sofre do síndroma AVC (Aquisição Verdadeiramente Catastrófica) - para o país, claro, para a PT em particular e para os trabalhadores da PT , ainda mais particularmente. Pois a referida personalidade atreveu-se a criticar o sistema educativo em termos menos elogiosos. Como está na moda, aliás. Vá lá! Que um comum cidadão, menos imune aos assaltos insidiosos dos media, profira tais insinuações, ainda se aceita, embora tal não o isente de uma proporcional e exemplar penitência. Agora o Ti Belmiro, uma das personalidades ilustres, um conselheiro muito requisitado de governantes e similares, devia mostrar mais contenção. Que percebe ele do estado da Educação? Tanto como a correspondente ministra? Talvez menos, o que, tendo em conta o termo de comparação, é menos que nada. Mas o Monge percebe. Percebe que aquilo que o Ti Belmiro quer são trabalhadores adestrados e amestrados. Devem ser móveis, polivalentes e aceitar a precaridade sem recalcitrar. Nada de espírito crítico, que isso só estorva. Os chefes que pensem e julguem. Os trabalhadores não foram feitos para isso. Nada de solidariedade, que isso contende fragorosamente com a ambiência competitiva instalada. Nada de valores, que isso é um mito pouco conveniente. A não ser que sejam os valores perfilhados pelo ilustre dito. O Monge pasma... e cisma. Então andou-se tanto tempo a apostar na educação para os valores, na sua contribuição para uma sociedade mais justa, mais equitativa, mais fraterna e mais solidária. Tanto tempo a apostar no homem com espírito crítico, dotado de autonomia de pensamento, de julgamento e de acção. Tanto tempo a apostar em cidadãos intervenientes e responsáveis. Opa, opa e mais opa! Perdoem-me a praga. Mas o Monge penitenciar-se-á na devida proporção, o que quer dizer... nada. Palavra do Monge

sábado, março 11, 2006

À M.
Com imensa admiração
Menina, criança-mulher,
Que nasceste já imersa
Em mar turvo e tormentoso,
Por que não largas teu sorriso,
Tão gentil, tão generoso,
nas garras de mão adversa,
Que tudo destrói, sem aviso?
Que lição é essa, a tua,
Que só agora entrevejo?
Menina, criança da rua,
Criança-mulher, como invejo,
No sorriso, a coragem,
No olhar, uma alegria,
O gozo de uma viagem,
Que eu tinha por sombria.
E, no entanto, quantos medos,
Que angústias, quanta dor,
Quantos recônditos segredos,
Escondes com amargor,
Por detrás do teu sorriso?
Sorriso de mulher-menina,
Olhar de mulher-criança,
Como encaras tua sina,
Sem largar mão da esperança?
Menina feita mulher,
Mais cedo do que merecias,
Navega sem esmorecer,
No mar sinuoso dos dias,
Sem jamais deixar morrer
Teu sorriso de menina.
O Monge

quarta-feira, fevereiro 15, 2006






BOM SENSO E PRECONCEITO


O monge constata com preocupação que este mundo é de loucos. Melhor dizendo, este mundo é dos loucos. Necessariamente, quer do lado das ditas e reditas consumadas democracias, quer do lado das presumidas teocracias, emergem os mesmos sintomas de demência crónica e progressiva. No entender do Monge, ascenderam ao poder pessoas que a ele não deveriam ascender. No mundo ocidental, profundamente influenciado pela cultura anglo-saxónica, tal situação é estranha e dificilmente compreensível. Pois que é feito da democracia, do direito de livre escolha e da responsabilidade que lhe está inerente? Teoricamente, deveriam ser escolhidos os melhores, os mais aptos, os mais capazes para conduzir os nossos destinos. No entanto, errámos indesculpavelmente. A nossa consciência crítica esboroou-se perante a demagogia, o populismo, carreados por uma comunicação social desprovida de consciência ética e de responsabilidade política e social. Por uma comunicação social infiltrada pelo corrosivo poder económico. Por feitores de opinião ao serviço de inconfessáveis interesses que não são públicos e, por isso, não pugnam pelo interesse colectivo. Por isso estamos orfãos, orfãos de pessoas credíveis, impolutas, de perfis devidamente alicerçados na tolerância, na ponderação, no bom senso. Qualidades que permitem dizer não, quando a maioria diz sim. Qualidades que recomendam diálogo, quando as palavras se tornam lâminas letais. Qualidades que edificam a tolerância, quando cruzadas e guerras santas são propagandeadas.
A comunicação social está em fanicos, descredibilizou-se. À boa imagem de um capitalismo selvagem, sem peias, em que a usura se espraia irremediavelmente, pegajosa, oleosa como o crude, vive obcecada pelos shares das vendas, das audiências, mandando às malvas os filtros deontológicos. Uiva clamando pela liberdade de expressão, arredada das profundas responsabilidades que lhe estão subjacentes. Contende fragorosamente com outros direitos humanos, que subalterniza.
E aí temos a tão indesejada contenda civilizacional. Esta escalada de intolerância, alimentada por actos impensados de gente com grande visibilidade mediática, que destrói todo um percurso ecuménico de luta pela paz, dura e prolongadamente erigido, vai transformar-se num disputa olho por olho, dente por dente, num esboroar de esperanças por um mundo mais fraterno, no respeito pelas diferenças e pela mais valia que dessas diferenças necessariamente emerge.
Pessoas de bom senso precisam-se. Devem assumir o protagonismo neste tempo de crise, em que cada acto, cada palavra, devem ser maduramente pensados.
O preconceito deve ser, numa perspectiva metodológica, recolocado nos sotãos da nossa consciência colectiva, sem bolas de naftalina, a esmiuçar-se em pó. O extremismo deverá ser considerado postura não grata, o diálogo intercultural preservado e alimentado.
E que se calem os discursos virulentos, tresandando a mofo e de ideias curtas, de comentadores e políticos desclassificados. Que se transfigurem definitivamente em personagens de comédia de um qualquer cinema mudo. Talvez assim possamos esboçar um ligeiro sorriso ou até largar uma incontida gargalhada.
Palavra do Monge.

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quarta-feira, janeiro 25, 2006

"Num país que ainda recentemente mostrou ser maioritariamente de esquerda, causa estranheza que o candidato da direita tenha uma vantagem tão forte em relação aos candidatos de esquerda, a ponto de poder ganhar as eleições na primeira volta."
Boaventura Sousa Santos
Visão
19 de Janeiro

PÉS NA TERRA

O Monge fica siderado com as afirmações de pessoas de inegável prestígio e provas dadas, como é o caso de Boaventura Sousa Santos. Tanto mais que, no mesmo artigo, ele refere "Não se pode atribuir tal facto a um tão mau desempenho do governo socialista que os cidadãos pretendam manifestar a sua frustração, votando massivamente no candidato da direita". Pois é, as grandes cabeças também se enganam. Principalmente se se encontram tão distanciadas da realidade, que a sua imagem lhes surge desfocada. Neste caso, um maior envolvimento, um maior contacto metodológico com a dinâmica social, do tipo observação participante, permitir-lhe-ia refrear o vigor da inferência supracitada. E evitar-lhe-ia o erro crasso na conclusão. E também a surpresa e a frustração. Esmiucemos o facto. A subida de Sócrates ao poder deveu-se a um descontentamento de franjas sociais fragilizadas, sujeitas aos ataques de um poder político demasiado conotado com o poder económico, na prossecução de uma estratégia neoliberal de emagrecimento do Estado e, consequentemente dos seus poderes regulador, fiscalizador e redistributivo. Por consequência, houve uma transferência de votos, essencialmente provenientes de uma classe média acossada e de todo um sector de servidores do Estado atingidos nos seus direitos. Essa deslocação de votos sustentou-se na esperança de um arrepio nas medidas reformistas esboçadas e no pressuposto de que a ideologia e a prática socialista nunca as viabilizariam. Sócrates traiu estas esperanças e, neste sentido e para este eleitorado, as medidas encetadas materializaram, de facto, um mau desempenho do governo socialista. Esta frustração foi tão dolorosa que, nas autárquicas, imediatamente a seguir, o PS sofreu uma confrangedora e estrondosa derrota eleitoral. Um investigador na área social deve ler estes sinais como os meteorologistas prevêem o tempo ou os sismólogos antevêem os terramotos. São factos concretos que, associados a outras tendências, prefiguram cenários que sustentam conclusões. No seguimento da continuidade das medidas altamente lesivas da população em causa, grande parte do eleitorado, goradas que foram as suas expectativas, retrocedeu ao ponto de partida e outro dispersou-se por outras candidaturas. Para o Monge, isto não foi uma surpresa. O que o surpreende é que especialistas de renome na área sociológica cometam erros tão flagrantes de análise e mostrem estupefacção perante as circunstâncias. Em quem poderemos confiar então, para que as iniciativas de quem nos governa primem pela equidade, pelo bom senso, pela adequação à realidade? Valha-nos o senso comum, que o outro anda algures, perdido como as mentes dos nossos especialistas. Palavra do Monge.

terça-feira, janeiro 24, 2006

NA BONANÇA
O Monge, sem surpresa, viu confirmados os seus vaticínios acerca dos resultados de uma campanha peculiar. Releu o seu último escrito e foi como se o passado se materializasse aqui e já. Sócrates coabitará mais afavelmente com Cavaco do que coabitaria com Soares. Dizia uma das gralhas da rádio, num dos desaforos costumados, que Sócrates atingiu o seu real objectivo. E que esse objectivo era destruir para reconstruir. O PS, claro. Raciocínio opaco, leviano, como é apanágio das ditas gralhas. Tal afirmação requeriria maior reflexão e comedimento. Pelo absurdo, aceitemos como válida tal inferência. Sócrates arrastaria consigo parte do PS, afirmava a gralha. A sua parte social-democrata. Premissas de sustentação desse raciocínio seriam os factos de Sócrates ter pertencido, num glorioso passado, à juventude social democrata e ao correspondente partido. Mas, afinal, quem é que Sócrates cativaria num tal propósito? O aparelho partidário em exercício efectivo de poder, nas sua complexa rede tentacular. E por quanto tempo o conseguiria? Obviamente, enquanto fosse o rosto desse poder. Um prazo curto de três anos e meio.
Na actual conjuntura, neste interessante cenário pós-eleitoral, o Monge não desdenharia da possibilidade da emergência de um movimento alternativo, mas com fonte diversa: a de Manuel Alegre. Mas não arrisca afirmar a eclosão de um novo partido. Esse movimento deve o seu êxito relativo a dois factores fundamentais:
- O descontentamento indignado de amplas franjas da população face à política discricionária de Sòcrates, ou seja, um segundo e ameaçador cartão amarelo;
- A desilusão em crescendo decorrente de um modelo de prática política que em nada a dignifica.
Se, pouco sensatamente, se pretendesse fomentar a eclosão de uma nova força partidária, o movimento gerado pela candidatura Manuel Alegre perderia toda a sua força geradora inicial e dissolver-se-ia na névoa partidária que pretendeu criticar.
Por isso, o Monge não acredita na alteração do espectro partidário existente. Acredita, isso sim, num sector da população mais activo, vigilante, voluntarioso e com ampla capacidade de intervenção, sufragada e legitimada pelo voto. A bem da democracia, contra a discricionariedade e a injustiça de medidas pouco reflectidas e pouco concertadas.
Que o autismo socrático milagrosamente se esfume. Que o bom senso se insinue nas acções e decisões de quem nos governa. Ah! E que as gralhas migrem. Preferencialmente para o deserto, com bilhete só de ida. Palavra do Monge.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

O ERRO DE SÓCRATES - INVOLUNTÁRIO OU INTENCIONAL?
Sócrates marcará, indubitavelmente, a história do PS pelos piores motivos. Os inícios auspiciosos, materializavam-se numa maioria absoluta alicerçada na esperança de que se retrocedesse na política que era apanágio dos governos de Barroso e Santana.
Assumiu poderes de governação e, estrondosamente, ousou fazer o que os seus antecessores tinham pensado mas não ousado. Defraudou, sem dó nem piedade, as expectativas daqueles que nele depositaram elevado crédito de confiança.
O povo não perdoa e, nas autárquicas, não hesitou em mostrar um primeiro cartão amarelo retinto ao governo socrático, numa manifestação claríssima de rejeição das medidas implementadas. Sócrates, numa demonstração de autismo suicida, cego e surdo, incapaz de ler nas linhas o que qualquer outro lia nas entrelinhas, manteve o mesmo rumo obstinado.
A sua estratégia relativamente às presidenciais sempre intrigou o Monge. Sem tacto nem diplomacia renegou Alegre e pressionou Soares. Esfrangalhou o PS e fragilizou a esquerda. Colocou Alegre entre a espada e a parede e Alegre renegou a espada e, habilmente, mas sem esforço, contornou a parede. Avançou com uma candidatura muito peculiar que, por não ser suportada por qualquer aparelho partidário, ganhou credibilidade e margem de manobra.
Quanto a Soares, uma referência democrática, recebeu um apoio armadilhado. Aceitando o apoio de Sócrates colou-se ao governo e às suas impopulares medidas. Nâo cativa grande número dos votos do partido nem os da esquerda remanescente. Necessariamente, não cativará os votos do milhão e tal de servidores de estado e seus descendentes ou ascendentes, vítimas da discricionaridade governamental. É obra! Soares merecia melhor.
Praticamente ofereceu, numa bandeja rosa, a presidência a Cavaco. Ofereceu também oportunidade de mais poder a tudo o que se dissimula na sombra de Cavaco. Fundamentalmente, abriu as portas de par em par, numa escala sem precedentes, à intrusão do poder económico e financeiro na política. É a predição do eclipse progressivo, mas total, do sol que Abril abriu.
O monge continua intrigado. Prefigura-se-lhe que Sócrates, não disse mas pensou. Pensou que a sombra de Cavaco será mais acolhedora de que um Soares presidente, eventualmente incómodo, sempre independente e fiel a uma cartilha de princípios socialistas fundamentais, enunciados claramente em várias obras de referência da sua autoria.
Os próximos tempos apresentar-se-ão foscos, turvos e, porventura, turbulentos. À custa de Sócrates, evidentemente.
Palavra do Monge.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

O ERRO DE SÓCRATES
O monge soube, pelos caminhos ínvios da comunicação social que temos, que o Presidente Sampaio qualificara de corajosas as medidas de contenção socráticas. Habituado como está a saídas menos airosas de elementos da outrora família socialista, que contrariam, pela palavra e pela acção a sua cartilha ideológica, ele já não se admira com o discurso.
De facto, estas medidas e esta postura, as primeiras, de cortes indiscriminados e despudorados sobre trabalhadores do Estado e a segunda, de absoluta e arrogante falta de diálogo e de concertação, nada têm de socialistas e muito menos de corajosas. Portanto, Sócrates não é corajoso, porque assume o poder de forma discriminatória, de acordo com directrizes de uma minoria detentora de grande poder económico, cuja ambição é controlar o poder político, destruir o poder regulador e redistribuidor do Estado e manipular os cidadãos trabalhadores fragilizados a seu bel-prazer. Está sustentado pelo poder económico, apoiado pela comunicação social, no usufruto de um poder político. Desta forma, não lhe custa ser corajoso.
Seria corajoso, isso sim, se afrontasse de peito feito, a actual ofensiva de cariz neoliberal que, após a queda do muro de Berlim, se espraia avassaladoramente por este nosso pobre mundo.
A história não perdoa e a acção socrática ficará indelevelmente nela gravada, não pela coragem demonstrada, mas sim por uma cumplicidade servil, que traz mais estragos que benefícios. Navegar a favor da maré não é um acto de coragem, é uma manifestação de impotência.
A seu tempo veremos que, fragilizando com medidas pouco ponderadas as estruturas do Estado, os portugueses ficarão com piores serviços na Justiça, na Educação, na Saúde. A pessoa mais simples constatará que, reduzindo o quadro de recursos humanos e materiais de um qualquer serviço público, a sua produtividade diminuirá e o cidadão fruidor desse serviço acumulará frustrações. Não sejamos ingénuos: as verdadeiras reformas fazem-se com mais e melhor investimento. As verdadeiras reformas fazem-se com mobilização e implicação dos trabalhadores. Estes precisam de reconhecimento, de dignificação da sua função. E das correspondentes contrapartidas sociais e económicas. Numa era de materialismo o reconhecimento deve ser também material. As palmadinhas nas costas não sustentam ninguém.
O monge torce para que apareça alguém realmente corajoso, com sentido de Estado, impoluto e incorruptível, ponderado e que saiba ouvir, para melhor decidir. Será como tentar encontrar agulha em palheiro. Os verdadeiros heróis, os personagens com currículo e perfil, vão-se sumindo na sombra da sua mortalidade. A humanidade está a ficar orfã. Quantas saudades!
Por agora, enquanto esperamos um improvável milagre, vamos assistindo, ao desfile trágico da vulgaridade, da banalidade, da boçalidade.
O monge sabe, no entanto, que se aproximam tempos em que a crispação social dará lugar à convulsão social. Pessoas verdadeiramente lúcidas já o teriam previsto. A bem ou a mal o equilíbrio e a justiça social serão repostos. O monge acredita que será a mal. Meditemos e não descuremos a acção. Palavra do Monge.

quarta-feira, dezembro 28, 2005

DOZE PASSAS; DOZE DESEJOS

1- Que os Estados Unidos vão dar uma volta ao bilhar grande e gostem;
2 - Que o governo peça um licença sem vencimento pelo prazo do mandato que lhe resta, a gozar no nordeste brasileiro ou em qualquer outro destino, à escolha, sem restrições;
3- Que deixem os professores educar;
4- Que deixem os juízes julgar;
5- Que deixem os médicos e outros profissionais tratar-nos da saúde (sem ironia);
6- Que os economistas trabalhem mais e falem menos;
7- Que os jornalistas sigam o exemplo dos Estados Unidos;
8- Que os comentadores padeçam, oportunamente, de lapsos de voz, sem comprimidos à mão;
9- Que se lixe o défice;
10-Que surjam verdadeiros empresários na nossa praça;
11- Que se deslocalizem todas as multinacionais para a Ilha da Páscoa, mas antes dela;
12-Que se ofereça o mercado às nossas pequenas e médias empresas, quanto mais pequenas e médias melhor.

Um sonho do Monge

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Sonho Marinheiro
Queria ele partir, feito marinheiro,
Da banda de cá, de uma qualquer margem,
Peito feito ao vento, afoito pioneiro,
Sem destino certo, ao sabor da aragem.
Realidade ou sonho, queria ele vogar,
Num gesto seguro, mão ferrada ao leme,
De lábios cerrados, com sabor a mar,
Dono e senhor, que ele ama e teme.
Derradeiro adeus à última gaivota,
Ilhota perdida na imensidão,
Sem olhar para trás, vai traçando a rota,
Com crua certeza fincada na mão.
Naquela deriva vai esquecendo histórias,
Sombras de passado que escreveram Vida,
Conscientemente, apaga memórias
De uma outra rota, por ele percorrida.
O Monge