domingo, dezembro 24, 2006

Tréguas felizes.
Uns pozinhos de anestesia.
O calor da lareira.
O aconchego das conversas partilhadas.
Um Presépio de gratas memórias.
Uma Esperança de dois milénios.
Sonhos em série piscando na árvore reciclada.
Enfim, muito sinceramente, um FELIZ NATAL.
Bem o merecemos.
Palavra do Monge.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Europe Today - Hasan Fazlić

HUMORES SULFUROSOS

Os frutos da traição colhem-se tarde. A própria estratégia da ocultação assim o exige. A sua maturação é tardia. O seu aspecto sedutor. Mas o seu sabor é acre, bilioso. Todos os jardineiros da Vida assim o reconhecem. Mas as sementes da traição proliferam, apesar da desconfiança. A alegoria do Éden grava dolorosamente nos primórdios da cultura este conceito ancestral.

Da traição emanam vapores terrivelmente sulfurosos. Chavez assim o diz e lá terá as suas razões, que o Monge reconhece, embora não se identifique com o populismo descarado do homem. Mas as emanações são tardias como a maturação. E os seus efeitos devastadores.

Tais frutos e vapores proliferam num frenesim arrepiante neste cantinho português. Que já não é assim tão português como dantes. Há vapores finlandeses, acerados como gelo. Há vapores suecos, irlandeses e doutras proveniências menos sãs. Mas todos esses fluidos tem a mesma origem, que Chavez compulsivamente localiza: o enxofre típico do extremo ocidente.

As provetas nacionais, onde fervem tais vapores, nunca foram originais. É uma incompetência criativa atávica. Nem a trair somos singulares.

Vem isto a respeito de medidas plagiadas, promovidas pelos nossos doutos governantes, que não tomam em devida conta a nossa idiossincrasia. As ditas inovações são encomendadas extra muros, embrulhadas em maquiavélico papel de fantasia e mascaradas com termos inéditos.

O último exemplo é o da flexisegurança. Um termo falso como Judas. "Etimológicamente" significa liberalização dos despedimentos. Mas a traição nunca rimou com coragem ou com frontalidade. Rima, isso sim, com má fé e hipocrisia. A dita palavra é estranhamente extensa, difícil de ler e de interiorizar. De forma que só a primeira parte importa. A segunda é um mero apêndice, no seu sentido literal. Uma coisa vã para extirpar, mais cedo que tarde.

E tudo isto provém, no timing cirurgicamente planeado, de uma elite corporativa entrincheirada em Bruxelas, habitualmente frequentadora de bacanais desregrados condominalmente fechados e viciada em sulfurite, a nova droga dos donos do poder, neste tempo deveras singular em que, no país do Plano Tecnológico, tectos caem sobre as cabeças de polícias, de manga curta em pleno rigor invernal e em que as seguradoras aumentam os preços dos seus seguros de saúde porque o Estado se demitiu das prestações de serviços básicos sem as quais ele não tem razão de ser.

Boas inalações. Palavra do Monge.


quarta-feira, novembro 29, 2006

Um novo paradigma infantil
A sociedade encontra-se arredada de problemas de extrema gravidade no plano da educação. Distraídos com um ambiente dito de mudanças radicais, a que se anexa o rótulo de urgentes, descura-se a investigação de fenómenos alarmantes, que nos confrontam com um perfil infanto-juvenil paradigmático. De facto, a realidade é esta: as nossas crianças são estruturalmente diferentes. Preocupado, o Monge, põe à consideração dos leitores fenómenos de cariz psico-sociológico, que deveriam estar na base de medidas sustentadas de prevenção e remediação, condicionantes da reestruturação do sistema educativo.
a
Síndrome do Pensamento Acelerado

Cury aponta o excesso de estímulo da TV, de conhecimento como a nova mudança nos paradigmas educacionais. “O estímulo dobra a cada cinco anos o que acontecia a cada 200 anos” diz. Além disso, para ele, a paranóia do consumo e da estética estimulou os fenómenos. “São eles que lêem a memória e constroem cadeias de pensamentos, produzindo uma nova síndrome chamada Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA)”, afirma Cury complementando que, no mundo todos cometem um crime contra a mente das crianças, dos adolescentes. “O SPA é caracterizado por baixa concentração, dificuldade em lidar com estímulos da rotina diária, irritabilidade, esquecimento, ansiedade intensa”. No livro, o autor grita a dezenas de países, onde a obra está sendo publicada, que a sociedade moderna comete um grave crime contra a juventude mundial. “Temos que reinventar a educação”, afirma.

Augusto Cury

Médico psiquiatra, escritor e cientista, é pós-graduado em Psicologia Social. Pensador, pesquisador da Psicologia, desenvolveu em 17 anos a primeira teoria brasileira sobre a construção da inteligência, denominada de Inteligência Multifocal, publicada em 1998.
a
Síndrome do Imperador

Em Espanha, face ao acréscimo de comportamentos agressivos de crianças contra os progenitores, investigam-se as causas de tais comportamentos invulgares. As crianças abrangidas pelo estudo demonstram não possuir consciência dos limites. Controlam o ambiente familiar, dão ordens aos pais e fazem recurso à chantagem emocional. Na raiz dos problemas estarão erros educativos.

Segundo Vicente Garrido, psicólogo, investigador da Universidade de Valência, “ (…) o sistema nervoso destes miúdos revela-se incapaz de processar empatia, compaixão e responsabilidade – eles, simplesmente, não sentem culpa”. Existe, consequentemente, uma dificuldade em processar emoções morais. A causa de tal disfunção residirá nos padrões de conduta reguladores da sociedade actual – o facilitismo, o consumo e a ausência de limites familiares e sociais.

Muitos pais deixaram inculcar nos filhos a ideia que tem direito a tudo. Estes, à medida que crescem, forçam os limites dos adultos, visando impor os seus.

Carlos Poiares, psicólogo, remete-nos para “ (…)uma sociedade niilista, hedónica e com filhos de agenda, fruto de pais sobreocupados”. A ausência de valores reguladores e o predomínio compulsivo da busca do prazer imediato seriam objectivos que conformam tais comportamentos.
As crianças em que se detectou a síndrome referida apresentam um determinado quadro comportamental, a saber:

Falta de autocontrolo;
Incapacidade de empatia;
Recusa do cumprimento de tarefas;
Visão dos pais como extensões de si próprias;
Estabelecimento de exigências;
Abuso da chantagem emocional;
Recurso à ameaça e ao insulto;
Agressividade e impulso destrutivo.

In Visão

domingo, novembro 19, 2006


Alunos do secundário, mostrando dominar com mestria competências no uso das novas tecnologias de informação e comunicação, organizaram, em tempo recorde, significativa manifestação contra as aulas de substituição.

Pais acusam professores de manipulação de alunos adolescentes, invocando o seu maléfico poder de influência junto dos seus educandos.
Renomados especialistas referem que tal reacção se pode designar de ciumeira espontânea e que constitui uma manifestação do inconsciente face à progressiva perda de autoridade dos pais.
Acrescentam ainda ser natural que, face ao número significativo de horas em que docentes e alunos estão em presença, estes tendem a procurar modelos naqueles. Este facto constitui uma alteração aos clássicos modelos de formação da personalidade infanto-juvenil mas encontra justificação na diminuta influência da família contemporânea, instituição praticamente ausente.
Testemunhas presenciais relatam que, num acesso de violência, um pai terá puxado as orelhas ao filho, vociferando:
- Sua besta! Então em casa não me obedeces e aqui fazes tudo o que aqueles facínoras te pedem?
E deste modo coarctou, drasticamente, o legítimo exercício da cidadania do seu estimado rebento.

quinta-feira, novembro 16, 2006


Roger Chaput - Paris Street Scene
A RUA
A Rua soa pejorativamente nos corredores da corte. Para os actuais cortesãos é abjecta, obscena, indigna. Para os mentores da sua propaganda é conotada com as mais reles intenções da populaça. O Monge assiste a uma nova revolução linguística. Não, não é aquela das palavras infindáveis e indecifráveis, que uma elite fundamentalista, pretensamente de vanguarda, quer incorporar no curriculo do Português. É um fenómeno sociológico carregado de significado. Por exemplo, a palavra Excelência releva nos discursos. Dir-se-á que é a nova Utopia desta velha Era. Um indivíduo intelectualmente honesto nunca se considerará excelente. Excelente é uma palavra que não joga com a imperfeição da natureza humana. No entanto, o Monge acredita que, para uma nova espécie de indivíduos com egos do tamanho das suas ambições, a Excelência seja uma meta exequível. De facto, a Excelência apresenta-se, sorrateira e perfidamente, como uma justificação para a segregação, para um exercício de facto da oligarquia.
Naturalmente curioso, o Monge foi procurar o sentido de oligarquia e ficou estarrecido. Vejamos:
Oligarquia é um sistema político e social onde o poder é exercido por uma elite dirigente que controla interesses importantes relacionados com o poder. Este grupo dirigente legitima, por vezes, a violência e a riqueza, para atingir e se manter no poder. E, por isso, este poder nem sempre é exercido pelos mais capazes e virtuosos.
Qualquer semelhança com a realidade é erro da enciclopédia. Mas que dá para pensar, lá isso dá.
O vocábulo MÉRITO também constitui um modismo. De facto o mérito sempre existiu e sempre se recomendou. Mas como um reconhecimento e não como um instrumento. Estes são dois vocábulos que a dita elite, pouco criativa, incorporou à fartazana no seu discurso e nas suas intenções.
Na óptica dos tais, a Rua é um local pouco recomendável, frequentado por pessoas pouco recomendáveis. Eles só a frequentam de passagem, com olhos obstinadamente fechados e protegidos pelas muralhas envidraçadas dos seus carros oficiais. Não a ouvem, não a escutam. De facto detestam-na.
E, no entanto, a Rua é a Vida. É também o palco das derradeiras batalhas. É o último retiro dos oprimidos, dos desavindos com a fortuna, dos joguetes do destino e também dos lutadores, daqueles para quem a resignação é palavra sem sentido. É aí, na Rua, que esses, orgulhosamente assumidos como Gente da Rua, vão largando pedaços de si como se fossem condecorações. É nessas escaramuças do quotidiano que espelham o seu mérito. E é no seu resultado que procuram a Excelência.
E desgraçado de quem, ostensivamente, não ouça o som da Rua nem nela veja os sintomas purpurinos do descontentamento crescente. Desgraçado de quem confie em artificiais unanimismos para inglês ver. O unanimismo não se recomenda. É uma manifestação de subserviência, traiçoeira e falsa, para quem cometa o erro de a tomar por certa.
Pois o Monge ainda acalenta esperanças de que a oligarquia vá urgentemente para o olho da dita. Para bem da Excelência daquele futuro avesso a qualquer tipo de desigualdades e injustiças.
Palavra do Monge.

quinta-feira, novembro 09, 2006


O Fim do Estado de Graça
Não era preciso ser muito perspicaz para intuir que a Saga contra o Estado constituiria o feitiço que se voltaria contra o Feiticeiro. O Monge sempre considerou um paradoxo que se colocasse à frente do Estado quem, de facto e muito explicitamente, o quer destruir. Isto só foi possível com uma imperdoável traição ao eleitorado, consumada numa descarada quebra de promessas. Por isso, o poder foi conseguido com base na mentira e na hipocrisia. E, ainda pior, passou a ser exercido de forma autocrática, rígida, avessa ao diálogo e à concertação. Metodologias muito parecidas com aquela outra senhora de triste memória.
Esse autismo suicida conseguiu aquele prodígio de difícil prognóstico: a unicidade sindical. Só que esta é muito mais letal do que a outra, a dos velhos tempos. É uma espécie de geração espontânea, uma consequência muito física das leis da acção-reacção. Poderemos enunciá-las assim:
-Qualquer agressão determinará uma consequente reacção;
-Essa reacção será, no mínimo, proporcional ao potencial agressivo;
-A escalada de acções/reacções progredirá exponencialmente.
Por consequência, e dada a rigidez negocial manifestada pelo Governo, era tão obviamente inevitável que a indignação extravasasse para fora dos circuitos formais de concertação. A indignação saíu à rua de forma há muito não vista. Isto é tão natural como a própria sede. É uma questão de sobrevivência. Em caso extremo, é guerra declarada, com todos os efeitos nefastos que lhe são inerentes.
Estamos pois em guerra, a qual o Governo finge não ver. O uso e abuso da propaganda governamental através do acesso privilegiado aos media determinaram o recurso a meios de igual potencial mediático por parte dos alvos dessa propaganda. Deste modo se justificam manifestações gigantescas e adesões maciças a greves como aquelas com as quais nos confrontamos. São avisos claros à navegação. São sinais a ter em devida conta.
O estado de graça socrático chegou ao seu termo, concomitantemente com o término do estado de graça da presidência republicana de Bush. Esta alusão não é despropositada. Vejamos um facto recentemente tornado público. Um alegado guru da economia, finlandês por nascimento, debita perante um público de enfatuados e subservientes economistas. Reparemos na sua indumentária: botas texanas, t-shirt e blusão xadrez. Uma ausência de vulto: o típico chapéu de abas largas. Este finlandês não é finlandês, é americano, neoliberal dos quatro costados, costados estes voltados ostensivamente para a tradição da sua Europa natal: a do Estado Social ou do Estado Providência.
É pena. O Monge ficou desiludido. Confiava na criatividade finlandesa. Ingenuamente, não sabia que a Finlândia bebera inspiração num sistema que não é o nosso e que não deve servir de exemplo para ninguém. A não ser que se seja partidário da competitividade sem peias, de um individualismo cego, enfim, das leis darwinistas aplicadas ao social e ao económico. E o nosso governo bebe inspiração na mesma água infectada. Palavras para quê!
O Monge não vai por aí. Mas fica satisfeito com o toque a finados do estado de graça socrático. E também do de Bush, pois isso só lhe fica bem.
Palavra do Monge.

segunda-feira, outubro 30, 2006


Quotas e Quotas LDA
Farto de ser bombardeado, dia após dia, mês após mês, por aqueles celerados sem vergonha, com conceitos abstrusos de meritocracia e excelência, que ele sabia não terem nada a ver com o caso, pois constituíam meras e muito descaradas desculpas para cortes e mais cortes, aquele docente decidiu responder à letra e aplicar as muito conceituadas e reditas quotas à avaliação do desempenho dos seus desprotegidos educandos. E sem avisar, como é de bom tom nestas coisas.
Leccionava ele numa turma com vinte alunos, nem mais nem menos. Uma turma nada má, pois cerca de 80% dos alunos foram, após rigorosas e exaustivas medidas avaliativas, carimbados com as notações de bom e excelente. 16 alunos, portanto.
Aplicou, inapelavelmente, as tão famosas quotas: de 5 %, para as notações de Excelente e de 10 % , para as notações de Bom. 15 % ao todo. 3 alunos, na verdade.
Como tinha decidido, autocraticamente e sem aviso, que só não chumbaria quem fosse rotulado com Bom e Excelente, aqueles 3 alunos passaram ao ano seguinte. Os outros por lá continuam, numa exasperante e tediosa agonia. Presentemente, acho que nem se importam muito. Resignaram-se, não mexem uma palha. Afinal aquele local é a sua vida.
O professor escolheu os privilegiados de entre os filhos dos pais mais rezingões, não vá o diabo tecê-las.
Está satisfeito e de consciência fresquinha. Há muito tempo que não se sentia tão bem!
Palavra do Monge

terça-feira, outubro 17, 2006

Chamas - Anna Paes



CORTEX E P'RÁ FRENTEX
O Simplex era tão simples, tão simples, que ninguém deu por ele. Talvez por isso, a estratégia socrática aposte cegamente no CORTEX. Não se trata de nenhum Plano Tecnológico vanguardista e miraculoso. Acho que ainda ninguém deu por ele. Também não é marca de preservativo. Seria um nome de criar arrepios, mas que seria eficaz e primasse por razões de Excelência, disso não teremos a maior dúvida. E deveria ter sido implementado há quatro ou cinco dezenas de anos e nas pessoas certas. Poupar-nos-ia estas linhas e os actuais arrepios.
O CORTEX é uma estratégia cega, surda e totalmente isenta de criatividade. Implementada e defendida com unhas e dentes por jovens conselheiros com MBA's granjeados no Império do Extremo Ocidente. MBA's que consistem efectivamente numa espécie de lavagem ao cérebro pouco higiénica. Os pobres coitados sujeitos a tais atrocidades têm visão limitada. Só vêem números. Trabalham com médias e percentagens. Estão definitivamente impossibilitados de ver as pessoas, de avaliar empaticamente os seus sentimentos e emoções. Consequentemente, tornam-se perigosos. Perfilham três princípios básicos, publicitados ao desbarato e desavergonhadamente: mobilidade, precariedade e polivalência. A separação do trabalhador da sua família, do seu meio de convivência é um pressuposto inegociável. A ideia de um emprego estável é de bradar aos céus. Um trabalhador deve desempenhar qualquer cargo ou tarefa sem recalcitrar, independentemente do investimento feito na sua qualificação de base.
Portanto, CORTEX nas escolas, nos professores, nos serviços da Administração Pública, na GNR e na PSP, no SNS, nas autarquias locais e nas regiões autónomas, nas maternidades e ainda mais. É a visão tacanha mas terrivelmente definitiva do carrasco.
CORTEX nas banhas do Estado, uma cirurgia inovadora e radical. É combater a obesidade com a anorexia. A estratégia é P'RÁ FRENTEX, alérgica a desvios e surda a sugestões ou contestações.
Os agentes desta estratégia socorrem-se sempre dos mesmos termos, a saber: emagrecimento do Estado, excelência, meritocracia, contenção, rigor e outros vocábulos dissuasores e brutais nos seus subentendidos.
Como são cegos e surdos, os fautores desta estratégia não antevêem a fumaça dos incêndios que provocam. São incendiários inimputáveis. Como não olham para trás, não vêem os destroços da sua acção. Possivelmente, perecerão nas chamas que geraram. Só que talvez seja tarde demais. Para os números que eles manipularam sem pejo, ou seja, os cidadãos sacrificados.
Como vêem, é SIMPLEX.
Palavra do Monge

quinta-feira, outubro 12, 2006

Harold Weston
A
PROCURA-SE
*
Jornalista independente, objectivo na investigação, claro na exposição. Que não peque por omissão. Que não manipule malevolamente o discurso. Que não se deixe arregimentar por interesses de outrem. Que não paute seus títulos e artigos pelo impacto leviano na opinião pública. Enfim, suficientemente corajoso, sério e imparcial.
*
O monge duvida que apareçam muitos jornalistas com currículo adequado ao solicitado. É um facto que se contarão pelos dedos aqueles jornalistas efectivamente objectivos e independentes. Jornais, televisões e rádio assumem-se como enformadores não só de opiniões, como também de comportamentos, hábitos, atitudes. Não é vã a sua atribuição como Quarto Poder.
*
Tal influência no indivíduo e na sociedade despertou a cobiça dos senhores do dinheiro e donos da economia. Formaram voo picado sobre os média na sua sofreguidão patológica pelo poder e controlo social. Os exemplos surgem-nos por todo o mundo, nesta época de expansão de um capitalismo sem peias. O poderio económico conduziu a concentração dos meios de comunicação nas mãos de uns poucos. Pelas contas do Monge, em Portugal, estarão concentrados na mãos de muito poucos. Cerca de três, sendo que um dos grupos é a pura e simples correia de transmissão da propaganda do governo.
*
Como essa propaganda não difere nada da dos grupos restantes, o Monge constata que o direito de expressão está ferido de morte. Os jornalistas são arregimentados pela sua capacidade de mediar o discurso dos patrões, filtrando, conformando e manipulando informação. Não serão, consequentemente, modelos de competência e ética jornalística. São os papagaios da comunicação. Verbalizam, escrevem, mas não são conscientemente críticos nem objectivamente independentes. Se lhes passarem pela mente alguns vislumbres de má consciência, serão irremediavelmente colocados no olho da rua.
*
Isso tem a vantagem de, afinando uma prudente desconfiança, muita gente apure o seu espírito crítico, dando o devido desconto àquilo que vêem, ouvem ou lêem. A relação afectiva e de lealdade para com um média esfumou-se. Lê-se, ouve-se e vê-se para criticar autores e linhas editoriais, não para se informar.
N
Então e o pobre e desafortunado público? Como e onde expressará a sua opinião? Aqui mesmo, na net. Daí a sua relevante importância como enorme palco alternativo de comunicação. Que desfalque para os média comuns! Sinais dos tempos. Destes conturbados mas fascinantes tempos de uma tão propagandeada mudança.
Palavra do Monge

segunda-feira, outubro 09, 2006






A QUEDA DA MÁSCARA


Caiu mais uma vez a máscara socrática. Não é que não estejamos a tal habituados. Para nós a dita já não existe. Só pensamos no desconforto de Sócrates. Andar sempre a dobrar-se incomoda e não é saudável. Para lá de transformar a sua actuação num eterno Carnaval. Agora que devia aceitar com melhor máscara a manifestação de pessoas justamente indignadas, lá isso devia. Mas irrita-se e, pior ainda, usa acessos privilegiados para manifestar a sua irritação. E não aceita que os não privilegiados se socorram dos meios que lhes restam para sublinhar a sua. Muito pouco democrático. Será que já lhe caiu a máscara democrática? E logo num dos lugares que são feudo do dito corso?
Palavra do Monge

quinta-feira, outubro 05, 2006

Stairway for Heaven
Hratch Israelian

PROFESSOR

Transportas teu Fado aos ombros
E o sonho na palma da mão
Vagueias por entre os escombros
De um mundo em convulsão.

Tu és o fogo que inflama
Mil e um sonhos de criança
Que guiada por tua chama
Vai criando Esperança.

Por onde pára a magia
Que só tu sabes usar?
Que é feito da alegria
que ardia em teu olhar?

Não queiras ser o espelho
Do Mundo que te querem impor
Mundo novo que é Mundo velho
De que já conheces o sabor.

Se soçobras, marinheiro
Neste Mundo de tempestade
Quem será o timoneiro
Do Mundo de tenra idade?

Faz juz à tal galhardia
Que já timbrou tua imagem
Enfrenta com valentia
Os desvairos da viagem.

O Monge













quarta-feira, outubro 04, 2006

William-Adolphe Bouguereau
Revolta-te
Na véspera do Dia do Professor, o Monge julga pertinente realçar algumas citações de António Nóvoa, sobre a condição do exercício actual da docência. Para que os professores aliviem um pouco o seu fardo e para que a sociedade e famílias aliviem a inaceitável pressão que exercem sobre docentes e escolas, conducentes a um ambiente hostil, crispado, incompatível com a serenidade indispensável ao acto de educar. Para que se dê azo à reflexão e que se perspectivem as consequências de uma política autocrática, sem sustentação pedagógico-científica. Para que famílias e sociedade assumam definitivamente a sua quota parte de responsabilidades no processo educativo, de forma ponderada, concertada, voluntariamente alheados a pressões externas mal intencionadas.
"... a escola está sufocada, esmagada, por um excesso de missões."
"Atribuiram-se demasiadas missões à escola e esse é um dos seus maiores dramas."
"Tudo com base no princípio despropositado de que a escola tem de ser abrangente, transversal e capaz de dar resposta a todos os problemas familiares e sociais. Isto é um delírio."
"Defendo que as crianças só devem estar na escola durante o tempo estritamente necessário e que este deve ser usado, de forma exigente, rigorosa e eficiente."
"...a escola deve ser a tempo inteiro apenas durante o tempo que é da escola."
"Já considero um erro colossal a concepção de escola a tempo inteiro como espaço dirigido às actividades de entretenimento, recreativas e de guarda de crianças. Estas missões são da responsabilidade das famílias e da sociedade."
"Os pais devem ser chamados a avaliar o trabalho das escolas mas não o desempenho profissional dos professores."
Notícias Magazine, 30 de Julho de 2006
"É verdade que os professores foram co-responsáveis por esse "discurso do excesso". Com a sua conivência alimentou-se um mito que lhes concedia o papel de salvadores e redentores da humanidade. Hoje essas imagens viram-se contra eles e são usadas para responsabilizá-los pela crise da escola."
"Eu creio que os professores podem e devem exigir duas coisas absolutamente essenciais que são:
· Uma, é calma e tranqüilidade para o exercício do seu trabalho, eles precisam estar num ambiente, eles precisam estar rodeados de um ambiente social, precisam estar rodeados de um ambiente comunitário que lhes permita essa calma e essa tranqüilidade para o seu trabalho. Quer dizer, não é possível trabalhar pedagogicamente no meio do ruído, no meio do barulho, no meio da crítica, no meio da insinuação. É absolutamente impossível esse tipo de trabalho. As pessoas têm que assegurar essa calma e essa tranqüilidade.

· E, por outro lado, é essencial ter condições de dignidade profissional. E esta dignidade profissional passa certamente por questões materiais, por questões do salário, passa também por boas questões de formação, e passa por questões de boas carreiras profissionais. Quer dizer, não é possível imaginar que os professores tenham condições para responder a este aumento absolutamente imensurável de missões, de exigências no meio de uma crítica feroz, no meio de situações intoleráveis, de acusação aos professores e às escolas."

Por conseguinte, o Monge extrai algumas conclusões:
  • No excesso de missões que cada vez mais se atribuem às escolas estará uma das razões do propagandeado insucesso escolar;
  • Que as recentes medidas educativas irão contribuir para o acréscimo de instabilidade na estrutura educativa e, consequentemente, para o insucesso escolar;
  • Que as actividades extracurriculares constituem, de facto, uma das missões sem sentido da escola porque visam, prioritariamente, ocupar as crianças face à desvinculação das famílias da sua responsabilidade de educadores;
  • Que os professores pecaram por aceitação resignada da sobrecarga de funções sucessivamente atribuídas;
  • Que o ambiente agora criado e gerado pela instituição de tutela só prejudica o funcionamento do sistema educativo e a acção docente;
  • Que o ataque acérrimo e continuado ao estatuto do docente em nada contribui para restaurar a dignidade profissional, entendida com uma variável essencial à motivação dos docentes e, consequentemente, com repercussão negativa na eficácia da sua acção e no sucesso escolar dos seus alunos.

Pois cá o Monge augura maus momentos para a educação em Portugal em tempos próximos. Mas que se imputem responsabilidades a quem de direito. Professor, faz o teu melhor. Mas insurge-te, revolta-te, dá corpo à tua justa indignação. Ao fim e ao cabo, fazendo-o, estás a contribuir para que não se hipoteque o futuro das próximas gerações.

Palavra do Monge

sexta-feira, setembro 29, 2006


Hipocrisia, mentira e manipulação
Numa escola, algures, escolhida rigorosamente a dedo, uma mulher, com gestos estudados e ensaiados, baixa-se ao nível de uma criança e lança-lhe palavras ensaiadas, escolhidas rigorosamente a dedo. A criança responde-lhe, naquela linguagem simples, directa, não ensaiada nem escolhida rigorosamente a dedo.
A mulher era a ministra, a da educação. Em casa, espectadores mais sensíveis levam o dedo, dissimuladamente, ao canto do olho e esborracham uma lágrima teimosa e indiscreta.
Mais tarde, num programa de televisão com o nome errado, uma mulher, uma jornalista, moderadora habitual, e outros protagonistas, escolhidos rigorosamente a dedo, bem ensaiados, sorrisos sardónicos estampados no rosto, olhos fugidios, falsos a léguas, debitam medidas, num discurso de via única. A mulher era a ministra, a da educação. Escutam-se os prós.
Uma revista, num lance estudado, ensaiado, escolhido rigorosamente a dedo, edita um anexo. Era um estudo, pretensamente objectivo, sobre o estado da educação. Esse estudo estava pejado de juizos de valor que, como sabemos não abonam em favor da pretensa objectividade, metodologicamente avessos que são ao rigor e racionalidade exigíveis.
Os exemplos multiplicam-se, num corropio, pelos media da nossa praça, travestidos de arautos da desgraça, propagandeando os "números da vergonha".
Entretanto, esses arautos, falsos como judas, com soldo de trinta dinheiros ou mais, aplaudem um início do ano escolar exemplar.
Entretanto, professores são pagos, pelas autarquias, a cinco euros à hora, com deslocações incluídas. As ditas autarquias teriam recebido 15 euros por docente e amealhado o sobrante.
Entretanto milhares de alunos foram sequestrados dos seus locais de origem, privados das suas referências, do almoço com os seus progenitores.
Entretanto milhares de alunos vieram empanturrar escolas e salas de algures. Obras, nem vê-las, só prometidas. Segurança e apoios tolhidos, precários.
Entretanto, cantinas são encerradas. As crianças comem ração por medida, sem tempo para apoio, para uma palavra de estímulo, para uma carícia, para um sorriso ou mesmo uma gargalhada. São números, submetidos aqueloutra prioridade de outros números, os do malfadado e persistente défice.
Entretanto, milhares de alunos são transportados, não nas condições apregoadas pelos já citados arautos a soldo, o dos trinta dinheiros, ou mais. Tentarão retomar, sentados, enrolados sobre si mesmos, os sonhos desapiedadamente interrompidos.
Entretanto, milhares de pais, os que esborracharam, dissimuladamente, uma lágrima teimosa no canto do olho, aplaudem, calorosamente, a clausura dos filhos.
Palavra do Monge

sexta-feira, setembro 15, 2006


pas de deux
CHristian Kruger


CAPRICHOS
O Monge não podia deixar de apreciar a caprichosa afirmação de Marques Mendes, salvo erro, relativamente a uma obscura parceria para um dito pacto de regime relativamente à reforma da Segurança Social. O regime crê-se espartano, pois limita-se a um maquiavélico ressurgimento de um Bloco Central que, de facto, já não é central mas alhinhadinho à dextra. O Monge desconfia, como é seu timbre, de pactos de regime em que os protagonistas são apenas dois partidos. O Monge solidariza-se com os demais partidos com sede parlamentar que, presumivelmente, não serão tidos nem achados na elaboração do Pacto. De facto, um pacto de regime deve ter uma ampla participação para obter legitimidade. Deveria ser divulgado e comentado num cenário de participação e transparência democráticas. Tal coisa não aconteceu, como se sabe, naqueloutro pacto, o da Reforma da Justiça. Tudo nele foi cozinhado, temperado e recheado em ambiente de alcova, a bom recato da opinião pública. Muito pouco democrático, embora reconheçamos que a democracia foi chão que já deu uvas e que, presentemente, não vai mais além de uma palavra vã, muito útil para discursos e práticas demagógicas de credibilidade nula.
Pois a saborosa afirmação, que citamos de cor, foi a seguinte:... que Sócrates não se deixe influenciar por "caprichos ideológicos de esquerda". Tal afirmação não é abonatória para o dito Marques Mendes, por vários motivos, a saber:
-Subentende, errónea e descaradamente, que a ideologia é um capricho e, consequentemente, irrelevante na prática política.
-Que Sócrates é caprichoso, consequentemente volúvel na sua postura política, quando, na verdade, é um estratega obstinado e com rumo, infelizmente, claramente definido.
-Que Sócrates é de esquerda. Se tal for verdade, onde posicionaremos geometricamente a direita? Cá está um problema que, garantiremos, será um quebra cabeças para matemáticos credenciados.
-Que Marques Mendes em nada contribuirá para a recuperação da nossa tísica democracia. É do género : tu matas, eu esfolo e fico com os ossos.
Com uma gargalhadita muito amarela e pouco audível, despeço-me por ora. Palavra do Monge.

terça-feira, agosto 22, 2006

O VENDEDOR DE SONHOS
"Dreams" Rafael Gallardo
-Que tempo de um raio!-reagiu ele, intempestivamente, ao dilúvio que desabava na avenida.
Aborrecia-se profundamente com o exílio forçado, ali, junto à escadaria que acedia ao casino. Uma escadaria larga, imponente, faustosa. Um acesso incerto ao jogo da sorte ou do azar. Uma subida feita de sonho e esperança, talvez a última. E de muitas e penosas descidas.
Pensando bem, seria um local estratégico para um cauteleiro. Para que procurar a sorte mais acima, se ele a oferecia muito mais abaixo e a preço de saldo.
Paradoxalmente, poucos respondiam à sua proposta. Preferiam a ambiência, o sabor a aventura e risco, o ruído, a vertigem mais perto do céu.
-Que tempo lixado!
A humidade colava-se, incómoda, ao frio lagedo do átrio. Estirado no chão, ele conferia as cautelas mais uma vez. Era fim de tarde e ele ainda não vendera nenhuma. Dia azarado.
Não é que isso lhe importasse grande coisa. Convivia com o azar há tanto tempo que se tinham tornado inseparáveis.
-Vou tentar arranjar uns cartões. Darão jeito, à noite.-E ela saiu à procura, ligeira, quase uma sombra.
Afinal era o que eles eram, duas sombras. Ele já não se lembrava de quando nem de onde a conhecera. Algures num daqueles recantos mais sombrios da cidade, locais demarcados dos esquecidos da fortuna. Tão pouco sabia o seu nome. Tão pouco lho perguntara. No entanto, tornaram-se parceiros e cúmplices naquele simulacro de vida. O passado, tacitamente, não existia. O futuro era para eles de uma clareza invulgar, imune a projectos ou expectativas.
Por isso viviam apenas o presente. Um momento de cada vez. Variavam de poiso, quando lhes apetecia. Viviam das sobras, nas franjas de uma comunidade selectivamente cega, mas não menos solitária.
-Maldita chuva!
Odiava aquelas gotas grossas e frias que lhe coartavam a liberdade. A liberdade de apregoar a sorte para aqueles que a podiam e queriam comprar. Já transportara entre mãos quantias fabulosas, que alteraram drasticamente vidas de desconhecidos. Encolheu os ombros, indiferente.
Sentia-se livre, no seu sentido literal e absoluto. Não obedecia a regras. Não aceitava compromissos. Não fazia concessões à vida. Vivia, pura e simplesmente.
Olhava, enfastiado, para a tarde inesperadamente brumosa daquele Agosto.
Afinal, o cartão seria benvindo.

segunda-feira, julho 24, 2006

O CERCO
Parte II


" A viúva" , de Teixeira Lopes

Um passante mais regular condoer-se-ia, possivelmente, ao entrever uma figura franzina, trajada de negro, minúscula silhueta por entre o milheiral. Talvez pusesse em causa a força e a persistência que naquele corpo fragilizado de facto residiam.
Um passante conhecido não ousaria esboçar qualquer dúvida acerca da capacidade da artesã daquela obra-prima de sobrevivência. Saberia ler toda uma vida gravada nas rugas daquele rosto magro. Traduziria o brilho daquele olhar profundo de quem muito viveu e viu. Adivinharia as cicatrizes que lhe sulcavam a alma de combatente.
Aquela mulher grudava-se desesperadamente ao passado como forma de resistir à precariedade do presente. Não entendia este ritmo avassalador que a rodeava. Estava definitiva e irremediavelmente ajustada ao ritmo compassadamente marcado pela lua, pelos ciclos das estações, pelo nascer e pelo pôr-do-sol. Nunca o seu pulso fora feito refém de um qualquer relógio. Nunca se deixara subjugar por horários que não fossem os estritamente naturais.
Assumira o negrume da sua viuvez de forma dolorosa e irrevogável. Desta feita, não se tratava apenas de um afeiçoamento cultural, de um perfilhamento cego de costumes ancestrais. De facto, o sentimento de perda que se seguira à morte do seu companheiro atingira-a com uma violência de que nunca se recompusera. A cumplicidade que os unira fora o alento com que enfrentaram e transpuseram, indómitos, dificuldades inumeráveis. Quase sossobrou com a forçada e eterna ausência. Mas a lembrança de uma convivência de muitos anos fora também o elixir da sua recuperação.
Agarrara-se à terra com a força do desespero. E a terra, agradecida, correspondeu-lhe, arrancando-a a um torpor que, a continuar, seria letal. Curvou-se ainda mais sobre os torrões que desmanchava com a ligeireza de décadas de experiência lhe tinham ensinado.
Andar curvada tornara-se a sua postura habitual. Não era apenas o estigma do inexorável desfilar dos anos. Era uma exigência de reverência da terra-mãe. Era o pagamento exigido pela fecundidade. Era um tributo, uma penitência, mas também uma honra e um testemunho.
Mas aquela débil figura reerguia-se quase miraculosamente, deixando vislumbrar todo o carácter, toda a raiva explosiva que dela se apoderava e que deflagrava num estrondoso não a qualquer proposta de negócio daquela parcela de território que era o seu. Mesmo filhos e familiares próximos, que não compreendiam aquela apaixonada ligação a um solo que, para eles, só fazia sentido quando traduzido em números, deixaram de a importunar, de a seduzir com razões que ela jamais compreenderia. Ao fim e ao cabo aquele solo era a sua vida. Abdicar dele seria suicídio.
De modo que aquele local se tornara uma ilha e a viúva a sua exígua população. O passante regular e conhecido admira a sua coragem e a sua persistência. Compreende a sua atitude e o seu modo de estar perante a vida, as suas alegrias e as suas adversidades. Torce para que tal coerência escorrace a superficialidade, o artifício, o vil interesse que se constitui como imagem de marca desta sociedade que idolatra o efémero. Torce para que esta fortaleza continue a resistir ao terrível assédio com pertinácia equivalente.
Palavra do Monge.

quinta-feira, julho 20, 2006


O CERCO
Parte I

Millet


Muitos chamavam-lhe oásis, a maioria um anacronismo.
De facto, aquele local era uma espécie de bolha, enquistada no tempo, um exemplo raro de resistência às arremetidas vigorosas da urbe.
Tratava-se de uma quinta. Uma área razoável dividida com rigor geométrico por fiadas de videiras rasteiras. Numa das pontas, a menos produtiva, como outrora convinha, quase desprovida de manta morta, elevava-se um barracão robusto, de paredes grossas em pedra granítica, simbólico bastião de anteriores e heróicas lides de sucessivas gerações de lavradores anónimos mas de obra feita.
Como abertura, apenas a porta, de chapa ondulada e ocre, a única concessão detectável ao assédio inovador do presente.
À sua volta brotavam fantasmagóricas gruas, esguias e arrogantes, no cerne de uma inusitada agitação. Máquinas famintas rugiam, ensurdecedoras, escalavrando impiedosamente o solo, deixando nele as feridas do seu afã destruidor.
E, num prazo extraordinariamente curto, mesmo tomando como padrão a vã efemeridade humana, aquele local ficou cercado. Rodeado de edificações de traçado variável, aparentemente sem vínculo congruente, aquele resquício de um qualquer passado ali jaz, indiferente à sua inquestionável solidão.
Um passante menos assíduo surpreender-se-ia, pois aqueles terrenos não apresentavam o desmazelo característico daqueloutros votados a um impiedoso abandono, invadidos pelo torvelinho desordenado de silvados apostados em comprovar os seus atributos competitivos no jogo desregrado da luta pela vida.
Aquele solo e a vida que ele gerava reflectiam a ordem imposta por mão humana, rara mas sábia. De modo que continuava a apresentar as mutações que o ciclo agrícola exige. Vides podadas a seu tempo, bandeiras do milheiral erguidas em ode à labuta do Homem e à pujança da Natureza.
O Monge

segunda-feira, julho 10, 2006

A QUADRATURA DO CÍRCULO
"Freitas do Amaral era um ministro quadrado, Luis Amado e Severiano Teixeira são ministros redondos"
Pacheco Pereira, citado na Visão
O Monge não vai fazer a mínima tentativa de contextualizar a citação estranhamente geométrica de Pacheco Pereira. Reconhece que não viajou até à fonte de informação para sacudir a estranheza que lhe impregnou a mente após a leitura de tão curta expressão. De forma que vai tentar fazer um exercício de descodificação, partindo dos perfis intuídos dos protagonistas activos e passivos deste incidente.
Presume que Pacheco Pereira não cometeria a descortesia de conectar tal expressão com a aparência física dos visados. O monge omite vigorosamente tal possibilidade que, no seu entender, seria altamente pejorativa, tanto para Freitas do Amaral, como para os seus sucessores, como para o próprio Pacheco Pereira ou mesmo para o próprio Monge.
Erradicando do nosso exercício a aparência física de cada qual, afinal de conta um pormenor insignificante, resta-nos enveredar pela envolvente psicológica de toda a questão. Será que PP quis afirmar que Freitas do Amaral era um governante teimoso, inflexível, difícil de demover das suas decisões? E que, por consequência, o seu percursor, mais macio, mais maleável, detinha as capacidades inerentes a funções diplomáticas?
O Monge inclina-se para esta última hipótese e tira algumas conclusões. Este governo não admitia duas individualidades quadradas no seu elenco: Freitas e Sócrates. Para que funcione, só necessita de um quadrado e muitos redondinhos, que voguem sem recalcitrar ao sabor do quadrado sopro socrático.
O Monge sente-se frustrado. De facto, acha que o qualificativo quadrado de Freitas era sinónimo de qualificação. Acha que as posições por ele tomadas foram corajosas, oportunas, justas e uma marca de carácter. O governo ficou, portanto, mais pobre mas, reconheçamos, muito mais maneável, o que para o Monge é muito mau sinal.
Deus nos livre dos redondinhos. São um perigo neste trânsito político infernal. Palavra do Monge.

segunda-feira, junho 12, 2006

Aquele sorriso
O Monge sempre desconfiou daquele sorriso. Não é um sorriso franco, aberto, leal. É mais um esgar, uma necessidade amarelada, talvez o espelhar de uma superioridade auto assumida mas que, assim o sendo, talvez atinja foros de patologia. Estou a falar do senhor Vitorino e do seu eterno sorriso. São inseparáveis. Para onde vai um, vai o outro. Mas são dispensáveis. Tanto se passa sem um como sem o outro. Melhor ainda, todos seriamos bem mais felizes sem o massacre mediático de um e do outro.
De resto, o sorriso do senhor Vitorino é um espelho de um partido que já o foi mas já não é. É uma frustração, uma traição, um desaforo, o esfrangalhar de esperanças acumuladas, uma contaminação, um vírus, a necessidade de uma quarentena. O socialismo esvaiu-se. A força concentrada do sangue de muitos feneceu após súbita e irreversível hemorragia. O partido gangrenou, descaracterizou-se. Ergueu, sob a sua própria lavra, uma barreira entre simpatizantes e militantes. A ideologia morreu.
O governo, emanência natural do partido, atenta sôfrega e repetidamente contra o Estado, ao qual pertence e que devia preservar. Intencionalmente e com uma descarada má fé, vai retalhando com requintes sádicos a estrutura que contribuiu com sublime eficácia para a redução significativa da mortalidade infantil, para o aumento da esperança de vida, para o apoio e prevenção da doença. O mesmo faz com um sistema educativo que aguentou, mau grado iniciativas avulsas e desajustadas de consecutivos governos, com a massificação do ensino, sem correspondente aumento de recursos. E tudo graças à abnegada e anónima acção dos professores que agora estão sob fogo cerrado da ministra, dos pais e da sanha oportunista de comentadores sedentos de polémica, que se pronunciam de forma irresponsável e leviana sobre assuntos que não dominam. São as gralhas dos media, entre os quais o Monge inclui um dito Sousa Tavares e um outro Pedro Norton, a par com o dito senhor Vitorino.
Todos têm em comum o pronunciamento nu e cru a desfavor de um dos sindicatos mais representativo dos professores: a Fenprof. Esse pronunciamento indicia um desrespeito inaceitável por estruturas que constituem pilares da democracia e instrumentos contra medidas atentórias de direitos fundamentais dos trabalhadores. Quem diz mal dos sindicatos diz mal dos professores. Quem diz mal dos sindicatos pronuncia-se contra a democracia. Senhor Vitorino, Senhor Norton, senhor Tavares, é óbvio que lançastes a democracia às urtigas. E sem qualquer remoer de consciência.
Duas das relevantes figuras mencionadas pronuncionaram-se sem sombra de dúvida a favor da avaliação dos professores pelos Encarregados de Educação. Uma medida ridícula só explicável pela instrínseca má intenção de quem a toma. Tenho muita pena mas, de facto, os pais não reúnem condições para tal. A grande maioria disvincula-se intencionalmente do acompanhamento dos seus educandos e da participação no processo educativo. O Monge chega a classificar os pais. Deste modo haverá encarregados da não educação e da má educação, qual deles o pior perfil. Mesmo sem querer, coagidos pela pressão de todo um mundo laboral cada vez mais darwinista, os pais vêem-se inapelavelmente afastados da educação dos seus filhos. E, senhor Vitorino e demais pares, a culpa é da sociedade que todos nós ajudámos a criar. Um exemplo de má arquitectura social, a qual a história se encarregará de julgar.
Face a estas agressões, facetas maquiavélicas deste governo de infiltrados, só se esperam reacções na justa medida. E elas ocorrerão naturalmente. É pena, o país merecia melhor mas... é capaz de não haver. Vade retro. Ao que isto chegou! Palavra do Monge.