sexta-feira, agosto 08, 2008

Porque não te calas?






- Porque não te calas? – impunha asperamente um dos autoproclamados democratas daquela sala em que se pugnara outrora rijamente por valores considerados fundamentais, por ideias profundamente alicerçadas na razão e na convicção da sustentabilidade do bem comum e do interesse público. Eram ideias claras que pressupunham que o bem-estar individual seria corolário da prossecução daquelas metas, por alguns proclamadas de utópicas e, por conseguinte, descartáveis.

- Porque não te calas... calas... calas...? - Insistiam os pares do autoproclamado dito. O som era impressionante, ampliado pela acústica de uma sala predestinada para a oratória. Pretendia ser intimidatório, sustentado na força do número, fundado na emotividade instintiva e subserviente das massas. Pretendia contrariar a proposta inconveniente de um, profundamente balizada na constatação de factos, na visão crítica de uma mudança social destemperada e na força da razão.

- O poder corrompe. O poder degrada. A corrupção dever ser erradicada. A lei é o meio e o processo...

- Porque não te calas? - O histerismo atingia o paroxismo. Por qualquer razão, aquela proposta insana beliscava o íntimo e os interesses de uma maioria. Impunha-se abafar aquela iniciativa desde já, esmagar definitivamente a vontade daquele insolente.

De facto, aquela intenção não passou disso. A corrupção institucionalizou-se. Lá fora, as gentes abanaram cabeças e encolheram ombros. Formularam os já costumados e acumulados juízos de valor extremamente negativos sobre a assembleia que outrora fora do povo. E esperaram pacientemente pelo próximo escrutínio. Seria um ajustar de contas a prazo e à medida.



Palavra do Monge

sexta-feira, julho 25, 2008

JULHO DE 2020

A Day Is Coming

Miriam Neiger




Memórias. O Monge agora vive de memórias. Sorve-as avidamente, reconhecendo nelas a muleta da sua própria sobrevivência. Sem elas, a sua vida explodiria num mar de trevas, tal qual o derradeiro flop de uma antiga lâmpada de filamento. Como testemunho da inevitável caducidade da chama, sobreviveria um fragmento de vidro chamuscado por um inestético e anónimo pó negro, naquele retorno cíclico e incontornável à matéria-prima do acto da Criação.



Memórias. O Monge assume o seu indeclinável papel de Transmissor. Como lhe soa estranhamente esta palavra, quando confrontada com as reminiscências de uma florescente civilização, cujo principal impulso era o acesso instantâneo à informação e ao conhecimento. Tinha sido a Era dos Prodígios, bela mas incompreensivelmente efémera.



No entanto, a sua audiência bebia-lhe a voz, os gestos e o olhar. O Monge sentia que acreditavam, pois as crianças sempre foram crédulas, apenas exigindo em troca que o interlocutor detivesse o mágico dom de cativar.



Para o Monge este exercício de sedução era relativamente fácil. Bastava relatar a verdade que, neste caso, ultrapassava qualquer ficção.



E, em palavras simples, falava-lhes dos grandes pássaros de ferro que outrora cruzavam os céus, com o bojo prenhe de pessoas para as quais aquele privilégio era coisa rotineira. Falava-lhes de caixas volantes que cruzavam países com a força e a liberdade do vento. E falava-lhes ainda do precioso líquido que os alimentava e que se sumira, num ápice, deixando todos perplexos, de consciência pesada com a culpa da sua incomensurável displicência e sofreguidão.



Memórias. Para o Monge, ente privilegiado por viver muito em pouco tempo, o insuperável problema esteve e estará na retenção, passagem e, sobretudo, valorização do testemunho. Outrora, em eras a perder de vista, quase sempre se dera o devido valor àqueles cuja face fora retalhada pela inexorável erosão da idade. Eram eles, por força de uma palavra sustentada em boas e más experiências, em relatos ouvidos e conservados com o desvelo de quem lida com o sagrado, que asseguravam a sequencialidade do saber.



Por mero acaso, o Monge fora espectador e interveniente dos fenómenos que emergiram na Era dos Prodígios. Fora submerso pela convulsão social dos Últimos Anos, os da decadência. Depois assistira ao rápido retrocesso a comunidades cada vez mais isoladas, que tiveram que reaprender as técnicas da auto-suficiência. A Globalização sumira-se tal como aparecera, num ápice. E a Humanidade chorara o que perdera e que tivera ao seu alcance: o bem-estar para todos e para cada um, objectivo desfeito pela sua ancestral tendência à cupidez e ao individualismo.



Memórias. E num mágico cenário de olhos brilhantes, que reflectiam o tremular da reconfortante fogueira, as crianças escutam palavras de um outro mundo, que reproduziriam, cada qual à sua maneira, quando os seus olhos paulatinamente se cerrassem, cedendo lugar ao sono, ao sonho e a um cândido sorriso. O Monge continuou, solitário e meditabundo, perscrutando o céu estrelado, à cata de um qualquer improvável relampejar em movimento: um jacto da Era dos Prodígios. Até que a sua derradeira esperança se apague, como o brasido que se consome à sua frente.



Palavra do Monge

quarta-feira, junho 11, 2008

NINGUÉM SE IMPRESSIONA

Hadleigh Castle
De Constable



Este nosso singular torrão, detém uma particularíssima singularidade, passem as sucessivas redundâncias. Tem um primeiro ministro nada impressionável. Quer isto dizer que não reage a impressões ou a pressões. Tendo em conta que a nossa competitividade, nos heréticos termos tão em voga, constitui condição de êxito, mérito e excelência (passem as sucessivas redundâncias) e que essa competitividade depende da presteza e adequação da reacção a pressões e impressões, afere-se, de forma lapalissiana, que o nosso primeiro não é capaz. Mais grave ainda, será o facto de que este incapacidade de ser impressionável está a colocar o dito torrão de pantanas. A Causa Pública, o poder de exercício do Estado, foi dolosamente afectado por arrogantes decisões, genericamente más, por algumas omissões e por apregoadas reformas, atabalhoadamente implementadas, que se assumiram como factores geradores de injustiças, rupturas e instabilidade social. É preferível uma não reforma a uma má reforma. A História está prenhe de exemplos, que nunca são tidos em conta por pessoas não impressionáveis. Daí o infernal ciclo de crises delatadas pela dita História.


Sendo assim, o nosso primeiro não difere nada dos senhorios do poder, qualquer que seja a sua natureza, mas que confluem sempre no poder económico. Toda esta peculiar e restrita elite tem algo em comum: não é impressionável.


Não é impressionável pelos números da rua, incapacidade matemática aguda; não é impressionável pelos indicadores do desemprego; não é impressionável pela precariedade galopante; não é impressionável pela quebra a pique do poder de compra; não é impressionável pelos estigmas bem visíveis de pobreza; não é impressionável pela segregação social crescente; não é impressionável pelo fosso abissal entre ricos e pobres... Bom, passem as redundâncias.


Digamos que a postura desta governança não é postura de Estado, mas do não Estado, tendente para Estado zero. Estranho paradoxo! Numa altura em que as pessoas impressionáveis antevêem como conjuntura de crise, a pessoa nada impressionável do nosso primeiro implementa as auto-proclamadas reformas inevitáveis, que adicionam mais crise à crise. Nada impressionante.


Ah! Acrescentemos ainda que a impressionante teologia do capitalismo neo-liberal não impressionável falhou, à semelhança da outra teologia que outrora vingou do outro lado do muro. Antigamente dizia-se, com alguma sageza, que os extremos tocam-se.


Ah! E não se impressionem com as filas para os combustíveis. O Monge convida-vos a tomar o lugar de espectadores neste sedutor início de milénio. Mas não se impressionem. Isso nunca, jamais, em tempo algum. Passem as redundâncias. Também as históricas...


Palavra do Monge.


sexta-feira, março 28, 2008

Camaleões

Eva Regina Silva



Impõe-se, para que mantenha a coerência, que o dito partido socialista, mude nome e sigla. Diria mais, mude o, outrora, bom nome e a, outrora, boa sigla. De facto, tal partido não tem nada de socialista. Nem ideologia, nem militantes, nem acção. Os princípios que norteavam o antigo partido, o do bom nome e o da boa sigla, eram universais. Os antigos militantes eram de boa cepa, forjados nos tempos duros, em que a oposição exigia coragem, ética e carácter. Os de agora prezam pelo seguidismo, pelo carreirismo, pelo desapego a princípios norteadores sem idade. São amorfos, não têm referências e, por conseguinte, perfilham a inércia. A acção do partido é tão neoliberal, que desarmou os parceiros neoliberais assumidos, mergulhando-os em crises sem memória. Mediante um perverso efeito colateral, descaracterizou o dito, conduzindo a uma espécie de orfandade política daqueles que, tradicionalmente e em saudosos tempos, se reviam nele.



Esta opção consciente pelo neoliberalismo mereceu o aplauso de pessoas sem pergaminhos socialistas. Diz-me quem te apoia, dir-te-ei quem és.Leonor Beleza é um desses casos. Os intragáveis Emídio Rangel e Sousa Tavares, idem, idem, aspas, aspas... E muitos outros, cujo apoio só deslustra aquele que o recebe. E as pessoas vão-se afastando, pelas mais sábias e profiláticas razões. E logo esta da neoliberalicite, que é doença ruim, difícil de tratar e, mais ainda, de erradicar.

Por cá, o Monge optou pelo fato espacial, hermético, à prova de som e de imagem. Pode ser que se safe.

Palavra do Monge

segunda-feira, março 10, 2008








O AVESSO DO AVESSO






Pois é. Isabel Stilwell e Eduardo Sá não querem apenas virar os dias do avesso. São mais profundos e ambiciosos. Decidiram mudar o Mundo do avesso. Diria mais, acham-se com saber e competência para virar a Educação do avesso. E ao fazê-lo, em vez de abrirem sentidos e mente a uma realidade que, obviamente, desconhecem, partem de uma ignorância sombriamente confrangedora para tecer opiniões, leviana e mansamente, em ambiente típico e relaxante de marquesa, sobre um processo crítico, atamancado, injusto e marcadamente contestado, de avaliação dos docentes.


Afirmações de Eduardo Sá são preocupantes. Parece que os professores ainda não saíram do modelo de escola de 75, terá dito. Evidentemente, o Monge, que na altura conduzia, colocou mais uma vez em causa a sua segurança e a dos outros, pois descarregou sobre o volante a sua bilís, ultimamente muito sobrecarregada com descargas inusitadas. Isabel Stilwell, uma oitava abaixo, mas em parceria harmónica com o interlocutor, acenava afirmativamente ao microfone.


Vejamos. Psicológica ou psicanaliticamente falando, que terá um mediático psicólogo, com acesso privilegiado a um meio de comunicação de massas, contra a escola de 75? Que idade teria na altura? O Monge tinha 17 anos. Eduardo Sá parece mais novo. Que vivências de 75 lhe foram tão traumáticas? A massificação do ensino, contrariando a triagem de uma educação para elites? A gestão democrática das escolas, em oposição à autocracia de um órgão unipessoal? Será que a sua origem radicava nas elites referidas e ele foi influenciado pela sua ambiência político-cultural característica? Ou procede de um estrato social ao momento menos interveniente? Não sei. Só sei que Eduardo Sá culminou com assinalável êxito o seu percurso académico. Provavelmente em escolas de 75.


Outra coisa bule com as meninges do Monge. É espantosa a ignorância que, mesmo especialistas renomados, evidenciam, quando falam sobre educação e professores. É um sintoma de um alheamento preocupante, durante demasiado tempo. Qualquer avaliação é um processo crítico, que merece imenso cuidado na ponderação de todos os factores que nele intervêm. O Monge está-se nas tintas se no privado a fazem sem a necessária ponderação. O privado não é um exemplo de virtudes e muito menos de justiça. Também se está nas tintas se na Finlândia a fazem desta ou daquela maneira. Só sabe que, numa reportagem sobre a temática, tapou os ouvidos e viu. Viu turmas reduzidas, mobiliário acolhedor e adaptado, apoio individualizado, material de outra galáxia. Enfim, investimento a sério.


Se, por acaso, sabe-se lá devido a que conscientes, subconscientes ou inconscientes razões, Eduardo Sá tem algo contra a escola de 75, o Monge também compreende que tenha sofrido um súbito apagão, uma branca de todo o tamanho, ao descurar os sintomas da recente invasão da nossa ilustre capital. Esses sintomas emergem de um profundo descontentamento e muita desilusão. Um psicólogo de topo deveria saber ler o que já não são entrelinhas, mas evidências.


Será que Eduardo Sá quererá pôr em causa a quase totalidade da opinião dos docentes deste recanto? Não é muito racional e é muito, muito, parcial. Ou será que pensará que, por infinitésimo acaso probabilístico, quase todos os professores são comunistas. Deste modo, compreende-se o 75. E talvez a tendência consciente, subconsciente ou inconsciente do retorno a 74.


Um conselho à navegação: erradiquem este hábito perverso de se pronunciar sobre tudo e todos, sem conhecimento sustentável. Abaixo a opinião. Acima a análise aprofundada, multidisplinar e imparcial dos factos, fenómenos ou processos educativos. Abaixo esta sombria e pouco dignificante sobreutilização do preconceito como metodologia de análise da factualidade social.


Pessoalmente, 75 não me causa comichão de maior. 2008 enche-me de urticária.


Palavra do Monge

sexta-feira, março 07, 2008


PELA RUA DA AMARGURA

Justice and the Light of Truth

Bassman






Os governantes sábios da antiguidade eram suficientemente sábios para duvidar das justeza ou eficiência das suas próprias decisões. Procuravam no espelho social o reflexo das suas políticas. Aferiam as opiniões na rua, no meio do povo. Nunca desdenharam deste sistema infalível de se auto-avaliar. O mérito ou o demérito, a excelência ou a falência das suas acções, eram sentidos no fervilhar da populaça, no agitar convulso do quotidiano. E da objectividade dessa aferição dependia a sua sobrevivência política. Eram sábios, porque humildes. Eram bons porque se colocavam em dúvida permanente.



O futuro era a sua grande incógnita. A sua previsão uma das suas maiores preocupações. Daí a preponderância das arúspices que, à falta de melhor, esventravam aves em prol do serviço público. Pode parecer tosco ou rude este processo milenar. No entanto, os subtis e apurados sucedâneos contemporâneos não se comportam a maior altura. É tudo uma questão de fezes.



De qualquer forma, assume-se que governante prevenido procura os sinais certos, no tempo certo e no lugar certo. Assume-se também que, se o faz, é para reformular más práticas, porque disso depende a persistência do seu precioso pescoço político. E, por consequência, algum bem para o Zé Povo.



Pois. Estes governantes são desgovernados. Tão cegos, tão surdos, mas uns cotovelos falantes. As suas acções não convenceram. As suas algaraviadas banalizaram-se, o que significa que viraram conversa de pássaro, um assobio que já não merece sequer um voltar de cabeça, a curiosidade de um olhar surpreendido.



A persistência pode ser uma virtude. A teimosia é, indubitavelmente, um defeito. A cegueira política é necessariamente um crime. A arrogância um pecado. O suicídio um pecado mortal.


Pois é, Senhora Ministra, Senhor Primeiro Ministro, Secretários e Subscretários de Estado, Jograis e Engraxadores do Reino, Peças Amorfas do Aparelho, Damas e Cavalheiros, os sinais estão aí. Naquele inexorável e tão temido lugar. Na rua.




A avaliação não admite exclusões. Os avaliadores, agora, são muitos. Daí a legitimidade do seu último e único parecer: um definitivo, uníssono e ruidoso chumbo.




Sinto muito.



Palavra do Monge




domingo, fevereiro 10, 2008



La Nouvelle Vague


Ciosos da necessidade de criar lugar e estatuto, os economista da nova vaga que, afinal não constitui nada mais, nada menos, do que uma muito velha com nova roupagem, assumem que a sua visão é uma visão integral do mundo, do indivíduo e das suas relações. Por consequência, não é um pedaço da Humanidade que pretendem submeter ao afiado gume do seu bisturi, mas sim toda ela, no pressuposto de que qualquer acção humana detém natureza económica.


Entram, assim, naquela competição desenfreada e irracional por um lugar de "excelência" no ranking das ciências, esquecendo, indesculpavelmente, o facto de que a análise de qualquer objecto, para assumir validade científica, deve incorporar os resultados de uma integração multidisciplinar, sob pena de reduzir a perspectiva e influenciar decisões insustentadas, passíveis de graves e irremediáveis consequências.


Começam por blindar o sistema teórico que lhes serve de base, enfeudando-se a axiomas de duvidosa consistência, entre os quais está o da racionalidade. Este famoso axioma afirma que qualquer agente económico tomará sempre a decisão mais acertada e eficaz, em termos económicos. Convém salientar que economistas off side contrapõem argumentação de carácter mais ajustado, contestando a racionalidade das ditas decisões. Mais informados acerca da natureza do homem, muito pouco racional e extremamente instintiva, reconhecem que o homem, ser vivo não privilegiado em dotes, se comportará mais como elemento anónimo de um qualquer rebanho, assumindo comportamente inexplicáveis e imprevisíveis, que incorporarão constrangimentos na pretensamente inexpugnável nova teoria económica. É a denominada Economia Borboleta.


Censores inescrupulosos, os ditos economistas Nouvelle Vague, desprezaram Keynes e apagaram Marx, obliterando os seus contributos para a ciência de se dizem defensores. Tomam como modelo a roda livre da competitividade desenfreada e sem controlo, remetendo para a selecção natural a retoma de mais um qualquer equilibrio rompido.


Rejeitam, por consequência, o papel interventivo e regulador do estado na economia, provavelmente a sua mais nobre função. Estrategicamente amputam-lhe os meios de exercer esse controlo, remetendo essa tarefa para o mercado, com as consequências nefastas que a costumada reacção tardia deste elemento provoca no tecido económico e social.


Descobriram a verdade la palissiana de que, para introduzir equidade no sistema, seria necessário retirar a uns para dar aos outros, sendo isso execrável, porque contende com a natureza divina e infalível do mercado. Sobrepõem a definição de preço à de custo, sonegando aquela noção de mais valia sabiamente introduzida por Marx.


Sustentam-se num fenómeno implausível designado por crescimento económico contínuo, estimulado por uma insana aceitação da inexauribilidade de recursos e de uma extensão ao infinito do mercado.


E, obviamente, esquecem-se do panorama de breu que se avizinha, com a deplecção irremediável do petróleo e a ausência aparente de alternativas, com aquela terrível espada de Damocles suspensa sobre a civilização ocidental, que constitui a deslocalização em força e em curso para leste e oriente.


Evidentemente serão responsabilizados, a seu tempo, por inércia decisiva e insensibilidade social.

O mercado e as suas leis tudo remediarão, tarde e a más horas, com chagas confrangedoras, mas remediarão... a seu tempo. Criacionistas, por natureza, respeitam, resignadamente, a metodologia de um presumível criador que, injectando nos genes da sua obra o material considerado essencial à propagação da vida, se desvincula e se coloca, serenamente, no estatuto de mero espectador.


Cá por mim, informo que já cativei lugar para o espectáculo. Num lugar muito próximo da saída.

Palavra do Monge

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Quedas e quedas, Lda.






Caiu o ministro e mais uns positos. Não caiu a ministra, a tal. Não me vou vangloriar da coisa. Esta ministra e aquele ministro não deviam passar de meras personagens de ficção. Esta realidade tem a crueza e a dureza de um pesadelo. Estes personagens não deviam ter existido. São máquinas destrutivas, trituradoras. Bastaram dois anos para que, cirurgicamente, se desmantelassem as coisas mais bonitas da Revolução de Abril. Pão, Paz, Saúde e Educação. Lembram-se do consagrado canta-autor e do seu estilo corrosivo de intervenção...



Temos agora, no decurso de medidas denotadoras de uma manifesta incompetência técnica ou, pior ainda, na prossecução de estratégias calculadas para demolir os sectores nobres do Estado, uma saúde feita em cacos, uma educação que sobrevive graças à inesgotável disponibilidade e notável vontade dos professores, indiferentes aos ataques cruzados de francos atiradores inescrupulosos. Assistimos agora, ao ataque ao terceiro poder, coagindo, intimidando infamente, desestabilizando, para enfraquecer a sua intrínseca vocação de fiscalizar os outros poderes, que o não querem ser, vamos lá saber porquê...



É o poder económico no seu melhor. No seu pior para a grande maioria dos portugueses. Introduziram mercenários sem alma, sem carácter, sem integridade, nos meandro do poder político. A corrupção banaliza-se e dissemina-se com a eficácia mais virulenta.



Adoptam-se modelos que não são exemplo. Abdica-se subservientemente do nosso potencial, da autonomia de prosseguir um caminho próprio, original, ajustado à nossa idiossincrasia. Os nossos governantes não têm imaginação, nem deixam que outros a manifestem. São extremamente quadrados, redutores e reducionistas.



Esta coisa do PS já foi chão que deu uvas. Murchou e descaracterizou-se. Para nosso mal. Com esta política suicida, auguro tendências fracturantes no seu seio. O PSD já vai esfregando as mãos, entregue a um tal de Filipe, O Oportunista. Futuro sombrio este!



Aquela coisa da União Europeia já foi chão que deu uvas. Está nas mãos de quatro ou cinco mandões. Os outros são os fantoches, com uma função simples, abanar afirmativa e solenemente o capacete.



O referendo foi para as urtigas. Os interesses instalados têm medo da democracia. Emitem baforadas, jactos de enxofre, à sua menção, imagem ou sugestão. Nada de participação da plebe. Quanto menos confiança, melhor.



Em suma. Regredimos na qualidade do exercício da cidadania. Regredimos na qualidade de vida. Regredimos na oportunidade e igualdade de acesso a serviços essenciais. A Humanidade não se consegue desvincular do perpétuo e inexorável ciclo de crises sucessivas, estigma genético do capitalismo. Prova provada da incapacidade de previsão e acção daquele Corpo tão em voga: os economistas pomposamente formados em universidades anglo-americanas. Um caso exemplar de insucesso escolar.



Um Bom Ano.



Palavra do Monge

segunda-feira, dezembro 24, 2007


És sempre tu






Há sempre uma estrela que brilha,
Só para ti , no firmamento,
É, na bússula, a estranha agulha,
Que te rege o andamento.


É o brilho em que tu bebes
A coragem necessária
Nesse trilho que prossegues
Em viagem temerária.


Essa estrela companheira,
Essa luz, esse pó doirado,
És tu, de outra maneira,
És tu, lá em qualquer lado.

Palavra do Monge

domingo, novembro 25, 2007

CORPORATIVISMOS

Luiz Pinto - Corpo de Mulher

Outrora chamavam-lhe consciência de classe. E possuir esta consciência era pressuposto para que se estrebuchasse contra as indignidades da existência. E assim se conseguiram resultados. Muitos e bons.



Agora chamam-lhe, intencional e pejorativamente, corporativismo. Este corporativismo é pior que a peste. É maleita social e causa de maleitas. Por isso, deve ser criticado, combatido e erradicado, custe o que custar.



Esta alteração semântica é recente e demonstrativa dos tiques do neoliberalismo. Repare-se no exemplo: antigamente havia destacamentos ou requisições, agora há estruturas de missão. Missão pressupõe algo mais sublime, no entendimento neoliberal e não só, e pressupõe também uma subordinação reverencial a um objectivo, algo muito parecido com a santidade. Desde modo, o neoliberalismo assume-se, pasme-se, como a religião da Nova Era. Uma religião pragmática e material, alérgica ao espírito e à espiritualidade, de que aproveita apenas a terminologia. Contradições...



Os detractores do corporativismo (que palavra chata!) desconhecem, ou fingem desconhecer, que constituem eles próprios unidades dotadas de sentido de corpo. E mal deles se o não forem! E mal nosso que o são! A dinâmica social é feita de equilíbrios e desequilíbrios entre corporativismos. Deste modo, as elites políticas em exercício de poder são elas próprias manifestações de corporativismo. Existe o corporativismo jornalístico, o corporativismo banqueiro, o corporativismo dos economistas e de outros clubes que hipocritamente omitem o seu corporativismo e detractam o dos outros. Contradições...



O problema fundamental reside na instilação intencional de obstáculos à emergência de determinados corporativismos. A proliferação dos contratos individuais, os atentados à contratação colectiva, visam, tão somente, a prevalência de corporativismos dominantes e socialmente letais, em termos de coesão.





Deixemo-nos de tretas. Corporativismos são como os chapéus, há muitos. E cada um trate muito bem do seu. Para seu próprio bem. Só assim sustentará, na devida proporção, o choque dos corporativismos que se auto-camuflam. Sabem que o são, mas não o assumem publicamente por razões estratégicas. Não é a teoria da conspiração. É a conspiração pura e dura.




Por ora, chega. Tratem do vosso corpo. É saudável, em todas as acepções da palavra.



Palavra do Monge

sábado, outubro 27, 2007





200 000








Houve festança na corte. A Nova Aristocracia reuniu-se com grande ritual e espalhafato, divulgado e ampliado pelos Novos Truões, disseminando vozes, imagens, escritos e muitas balelas sem sentido. Bailou-se a valsa, o corridinho e outras danças de costumes. Relampejou foguetório a rodos. Por entre pulos e aplausos, o champanhe escorreu, saciando espíritos insaciáveis.


Digamos que tal desvario se justificava. A soberana azul, coroada de estrelas, tantas que o peso da coroa se tornava desmesurado, tinha parido. Tinha parido um amoroso Tratado, rechonchudo como todos os filhos de boas famílias, mas que não chorou ao nascer, ciente do seu sigiloso destino. Veio ao mundo com todas as boas qualidades da elite cortesã: era dotado de uma ilimitada mobilidade, incomum para tão precoce idade, mas necessária para que gente estranha e menor não satisfizesse a sua indesejada e inoportuna curiosidade; era precário porque, na verdade, ninguém acreditava na capacidade para se perpetuar e era polivalente porque, de facto, satisfazia a todos e a nenhum.


Enquanto no Paço se esbanjavam porreirices, lá fora, o terceiro e último estado, esquecido e descrente, dava vazão ao seu descontentamento ressentido. Não valsava e o corridinho era outro. Baldava-se para o recém nascido, pois augurava que nunca o viria a conhecer. E não se pode amar, nem sequer aprender a gostar do desconhecido. A crença, por aqueles lados, era mortiça ou inexistente e a desconfiança um modo de estar, uma defesa contra promessas que tinham o infame costume de se transfigurar em mentiras e medidas acriteriosas e sempre penalizadoras.


E assim estavam as coisas naquele reino, por instantes tornado no centro do Mundo e na sua cruenta imagem.


Não te amofines. Tudo está porreiro, pá!


Palavra do Monge

segunda-feira, outubro 15, 2007




LEMBRAR ADRIANO


Cantar de Emigração



Este parte, aquele parte

e todos, todos se vão

Galiza ficas sem homens

que possam cortar teu pão.


Tens em troca órfãos e órfãs

tens campos de solidão

tens mães que não têm filhos

filhos que não têm pai.


Coração

que tens e sofre

longas ausências mortais

viúvas de vivos mortos

que ninguém consolará.
Adriano Correia de Oliveira
c
..
.
.
c
.
Adriano Maria Correia Gomes de Oliveira nasceu em Avintes, em 9 de Abril de 1942. Aí se iniciou no teatro amador e foi co-fundador da União Académica de Avintes.

Cursou Direito na Universidade de Coimbra, tendo sido repúblico na Real Repúbica Ras-Teparta. Pertenceu ao Orfeão Académico de Coimbra, como solista, e fez parte do Grupo Universitário de Danças e Cantares e do Círculo de Iniciação Teatral da Académica de Coimbra.

Foi guitarrista no Conjunto Ligeiro da Tuna Académica. O seu primeiro disco, "Fados de Coimbra", saiu em 1963. Dele fazia parte a balada Trova do Vento que Passa, com poema de Manuel Alegre,que rapidamente se tornou um símbolo da resistência estudantil à ditadura salazarista.
.
Cantar de Emigração insere-se na obra Cantaremos, editada em 1970.

Morreu no dia 16 de Outubro de 1982, com quarenta anos, na sua terra natal. Passados serão 25 anos. Amanhã.


domingo, setembro 30, 2007

QUESTÕES DA BOLA
Madre Teresa de Calcutá - Aguijarro




Viva Santana! Nunca pensei expressar-me deste modo relativamente à dita personagem. No entanto o homem procedeu adequada e dignamente face ao atropelo decorrente de uma patológica busca de audiência.


Coloquemos o futebol no seu devido lugar. Gosto da bola e, em especial, de a ver. No entanto, consigo relativizar a sua importância num lote de prioridades. Reconheço as capacidades profissionais de Mourinho mas não vou muito à bola com a sua maneira de ser.


Fiquei algo chocado quando, na sequência de um daqueles banhos mediáticos com que nos encharcam a paciência, também na sequência daquele banho milionário que o treinador em questão recebeu como prémio pelo seu afastamento, o ouvi dizer, alto e bom som: Agora vou é gozar a vida.


Instantaneamente, estabeleceu-se uma associação nesta minha encarquilhada cabeça. Nada mais nada menos que com outra protagonista do circo mediático recente: Madre Teresa de Calcutá.


Considero-me racionalmente um céptico, embora instintivamente um crente. A crença foge ao controlo da racionalidade, cola-se-nos à mente, tem vontade própria. Agarramo-nos a ela, desesperadamente, tentando encontrar significado para a Vida e dignidade para o Homem. O meu cepticismo diz-me: tu és a besta e ages deterministicamente com tal. A crença murmura: tu és Homem, objecto privilegiado da Criação. O cepticismo clama: o que tiveres de fazer, fá-lo na efemeridade que a vida te permite. A crença acalma-me: Há outra Vida, mais justa e solidária, que dura a Eternidade. O cepticismo aconselha: age. A crença seduz-me: tem Esperança. Um reclama acção, a outra paciência.


Madre Teresa era uma pragmática e, alegadamente, uma crente. Fiquei surpreendido com as notícias dos seus prolongados momentos de escuridão espiritual. Provavelmente, o seu contacto com as misérias e injustiças do mundo do Homem obscurecia a sua crença, como obscurece a minha. Apesar disso, esses momentos de falha de diálogo com o divino nunca esmoreceram os seus desígnios. Talvez contribuíssem, isso sim, para os exacerbar. Afinal, pelo sim ou pelo não, jogando pelo seguro, talvez seja melhor lutar pela felicidade na terra. O resto, depois se verá.


Acontece que a felicidade é um bem escasso. A felicidade de uns passa frequentemente pela infelicidade dos outros. Nesta óptica há necessidade de uma redistribuição mais equitativa. Mera questão económica.


Deste modo, um, o treinador goza a Vida encharcado em milhões, para si. A outra, a Teresa, gozava a Vida mendigando ninharias para os outros. Um, certamente não terá dúvidas e raramente se enganará. A outra deixou obra e seguidores, apesar da dúvida. Esta dúvida é a medida da sua imensurável grandeza.


E, já agora, uma confissão: sou portista desde que me conheço.


Palavra do Monge.


terça-feira, setembro 04, 2007


ESBOÇO

segunda-feira, setembro 03, 2007


A MULHER QUE NÂO SORRI


Mary Cassatt - Jenny and Her Child




Aquela mulher nunca sorri. Ou só sorri em privado e para pessoas do seu círculo restrito. A ausência de sorriso é uma doença. Cada vez menos rara. A ausência de sorriso é uma doença contagiosa. Uma ministra que não sorri constrói muros. Muros altos, com arame farpado em cima e com terra de ninguém a circundar.

Uma ministra de educação que não sorri é um caso complexo. Por que será que não sorri? Achará o sorriso uma perda de tempo? Entenderá o sorriso como uma brecha por onde se insinuará o indesejado abuso da confiança? Ou cortou relação com uma vida inapelavelmente madrasta? Ou o fardo do cargo que ocupa lhe mina inexoravelmente a empatia? Sei lá...

O caso é que eu também deixei, hoje, dia 3 de Setembro de sorrir. O fardo do cargo que ocupo mina-me inexoravelmente a empatia e a simpatia. O caso é que ,quando olho à minha volta, reparo que os meus colegas deixaram, subita mas simultaneamente, de sorrir. As ordens vêm de cima: sorrir é uma perda de tempo, sorrir é um acto excedentário, portanto descartável.

O caso é que para a semana as crianças depararão com um professor carrancudo, que a vida não está para sorrisos. Lavo daí as minhas mãos... o modelo impõe-se hierarquicamente, através de circulares blindadas, protegidas por arame farpado e de via única.

É pena! É tão bom sorrir! E como é bom ser correspondido por aqueles espontâneos sorrisos de criança, tão profundos e tão verdadeiros. Mas, sinceramente, não me apetece sorrir. Há 10 medidas, exactamente 10, não 9, nem 11, que mo impedem.

O sorriso impôe-se-nos, deste modo, como uma espécie em extinção. Quando os educadores deixam de sorrir, mais tarde ou mais cedo as crianças absorvem-lhe a ausência. Mal andará o mundo quando as crianças deixarem de sorrir.

Palavra do Monge

sexta-feira, agosto 10, 2007

Salvador Dali




O DECLÍNIO DO ÚLTIMO IMPÉRIO



"A taxa de natalidade portuguesa era, em 1960, de 24,1 %, em 1980, de 16,2 %, em 1990, de 11,7 % e, em 2005, de 10,4 %. Temos, em 2007, menos 1/3 de nascimentos do que tínhamos na década de 80 do século passado."


" O índice sintético de fecundidade para assegurar a sustentabilidade de gerações é de 2,1 filhos por mulher."


" Temos 47 000 nascimentos a menos, todos os anos."


Feliciano Barreiras Duarte, in A Visão



Antes da revolução, a população buscava o seu sustento, com métodos ancestrais, na terra-mãe. Vivia-se, tão somente, para sobreviver. Conjugava-se a sobrevivência no presente. O passado estava repleto de rotinas e, sobretudo, era um repositório de experiências, sempre vivas, por tão fundamentais. O futuro, cruamente previsível, era inoportuno e tão desconfortável como uma carga de mosquitos.


De facto, vivia-se uma ruralidade medieval. O tempo arrastava-se ronceiro, parco de novidades e mudanças. Era contado e medido nas estrelas. Aprendido em saberes que escorriam, à boca do fogo, numa roda feita de gerações.


A pobreza grassava, num cortejo de sequelas irreversíveis. Mas as famílias eram grandes, enormes. A criançada proliferava, num repto orgulhoso, pleno de raça, à arrogância ditatorial do natural salve-se quem puder. Quantas morriam, mas isso nunca constituiu obstáculo de vulto. Os genes sempre foram transmitidos, como se impunha, em quantidade e qualidade.


De repente, num estalar de dedos, as leis foram mudadas. Rasgaram-se estradas e oportunidades. O futuro deixou de ser cinzento e coloriu-se com o fulgor de mil promessas. As montras passaram a estar ao alcance da mão. Criaram-se expectativas e a vida sorria, em cada labirinto de um qualquer centro comercial.


Mas a contrapartida impôs-se, desde logo. Para responder ao afã consumista e à autonomia económica e social, num anseio merecido, mulheres e homens investiram no trabalho e carreira. A família clássica desmoronou-se. Numa mão-cheia de anos a natalidade atingiu níveis exíguos.


E aqui está o paradoxo. Por esta fresta de oportunidade disseminou-se o germe responsável pela morte do último império. As crianças são uma franja social em extinção, neste império tão senhor de si. Precariedade, mobilidade, generalização de métodos contraceptivos e da IVG, endeusamento da carreira em desfavor da família, reduziram drasticamente o número de nascimentos.


Sem reposição das gerações a sociedade ocidental definha. Presentemente vive-se melhor, mas há crianças a menos. Há décadas atrás vivia-se mal mas a riqueza fundamental coabitava ali mesmo, naqueles agregados que sobrelotavam casebres.


Será que não podemos fugir a este jugo determinista? Será que o preço do progresso é, inevitavelmente, a degeneração de uma comunidade? Ou será que a igreja tem razão? Haja alguém que responda, mas depressa que, por este trilho, não vamos lá.


Palavras do Monge




quinta-feira, agosto 09, 2007


ESBOÇO


sábado, agosto 04, 2007

Borrasca - Néstor



SINAIS DE BORRASCA




"Na campanha do penúltimo congresso socialista, em 2004, eu disse que havia medo. Medo de falar e de tomar livremente posição. Um medo resultante da dependência e de uma forma de vida partidária reduzida a seguir os vencedores (nacionais ou locais) para assim conquistar ou não perder posições (ou empregos)."


Manuel Alegre, in Público, 25 de Julho


"Não há marcas de esquerda neste Governo. Essas deviam estar no terreno social mas, como já vimos, os direitos sociais estão um pouco proscritos. Por exemplo: não considero uma marca de esquerda ter promovido o referendo ao aborto, apesar de ter votado sim. Marca de esquerda era cumprir a democracia política, social, económica e cultural. Dentro do Estado Social o direito à Saúde é fundamental. E aí as marcas não são de esquerda..."


António Arnaut, in Visão, 25 de Julho


O Presidente da República, Cavaco Silva, manifestou-se hoje surpreendido com a não renovação da comissão de serviço da directora do Museu Nacional de Arte Antiga, considerando que o trabalho de Dalila Rodrigues foi "muito meritório".


In Público, 5 de Agosto


Num parecer entregue 6ª feira à ministra de Educação, a que a agência Lusa teve acesso, o Provedor de Justiça, Nascimento Rodrigues, manifestou-se "perplexo" e "preocupado" com as regras do primeiro concurso de acesso a professor titular, apontando mesmo a existência de situações de "flagrante injustiça".


In Jornal Esquerda, 5 de Agosto



O Monge admira-se porque os outros só agora se admiram. De um momento para o outro depara com artigos que denotam preocupação com decisões de um governo que é também o Partido. Não se refere a palavra seguinte porque o seu uso é obsceno face às circunstâncias. António Arnaut adianta que o Partido virou tanto à direita que um indivíduo que se mantenha fiel ao seu projecto original ficará necessariamente de fora.


Esta deriva repentista à direita deixou a direita amorfa, afónica e inerte. Podem os habituais detentores de prolixa verve, guindados ao estatuto de comentaristas disto, disso e de mais aquilo, e de tudo junto também, procurar outras razões para a inexistência de oposição eficaz. A verdadeira razão aqui está: temos o Partido da Direita no poder. Os demais partidos, os clássicos de direita, para não sossobrarem ingloriamente, têm que navegar à esquerda. Um paradoxo.


As ditas preocupações saúdam-se, mas pecam por tardias. Se não passarem de mera retórica, se não forem complementadas pela acção, se não implicarem mobilização, perdem o viço e murcham. Um vão definhamento.


De qualquer forma, o mal já se propagou e as suas sequelas são irreversíveis. A própria democracia foi perdendo alma, chama, sentido. Os comentaristas disto, disso e de mais aquilo que procurem os sinais, remexendo nos resultados do último acto eleitoral.


Pois é. Alguns admiram-se e arregalam o olho e a consciência. Até os dignos jornalistas, ocupados e preocupados a detectar alegados arreganhos corporativos, se esqueceram que, algures, também os tinham. Quando assanhados reagem darwinisticamente, como se impõe, e recorrem ao Anjo da Guarda, num estertor de desespero mediático. Afinal são iguais aos outros... Que desilusão!


Quanto ao Monge, admirou-se em devido tempo, um tanto atrasado, é verdade.


Arrependeu-se e está em fase de rigorosa penitência.


Palavra do Monge

quarta-feira, julho 25, 2007

The Past and the Future
EDWARD TABACHNIK



A TECNOLOGIA DO DESEMPREGO


Foi após uma daquelas visitas corriqueiras que acabamos por fazer a um qualquer antro de consumo, vulgo grande superfície, que levei uma daquelas ensaboadelas que se incrustam na memória de modo tão definitivo que incomodam. Talvez a sua permanência se deva ao desprazer que provocam e a uma má consciência que nos indispõe .




Sei, de antemão, que a curiosidade pode matar. Ou, se não mata, fere. Prometi a mim mesmo, como em muitas outras vezes, que não iria gastar peva. Só tencionava tomar um daqueles banhos de consumismo de forma completamente gratuita. Entraria e sairia de mãos nos bolsos e de carteira impoluta, depois de saciada a minha curiosidade e de satisfeita a minha pulsão materialista.




Acabei seduzido junto a um caixote de filmes descompostos de tão remexidos. E, como não sou mais nem menos que os outros primatas remexedores, remexi também. Esquecendo o insistente grilar do meu grilo consciente e a minha intenção inicial, peguei em dois dos produtos e dirigi-me a uma das caixas, a que me parecia mais acessível.





Sou bruscamente interrompido pelo apelo de uma funcionária que me esclarecia:




- Por aí não! Por aqui, se faz favor.




No atordoamento que me é característico, sempre que frequento um destes locais, lá pensei que tinha mais uma vez metido a pata na poça, e que não tinha cumprido um dos rituais de pagamento necessários, que envolvem filas, prioridades, paciência a rodos, saber lidar com maquinetas de alto padrão tecnológico e aplicar procedimentos esquisitos em sequência.




E pronto, lá fui confrontado com uma maquineta ainda mais topo de gama, obedecendo sem reacção a uma série de instruções que me iam sendo dadas: meta as embalagens aqui, pouse acolá, carregue com o dedo aqui, meta o cartão acolá, retire o recibo ali. Vá-se embora e muito boa tarde. Da próxima vez já sabe como é.




Olhei, estonteado, em redor e apercebi-me do olhar reprovador dos circunstantes, disciplinadamente aguardando na fila de onde eu tinha saído, esperando a sua vez de lidar com a máquina de não tão alto padrão tecnológico e com a simpatia, paciência e o sorriso da funcionária da caixa.




Aquela experiência marcou-me e relatei-a a um conhecido, residente numa das nossas principais urbes que, exasperado, me disse:




- Então você não tem vergonha. Na minha terra há dessas máquinas há montes de tempo. Também me convidaram e eu recusei-me a usar aquela porcaria. E grande parte das pessoas procede como eu. Tenha vergonha. Uma máquina daquelas sonega emprego a uma data de gente!




E eu, encabulado, enfiei silenciosamente a carapuça e , estrategicamente, mudei de assunto e de lugar, assobiando, em surdina,a Internacional de boa memória...




Palavra do Monge








sexta-feira, junho 29, 2007

Autor desconhecido - In BeinArt.org




ANDAM A ENGANAR OS PACÓVIOS!



Recuso-me terminantemente a que predeterminem a minha esperança de vida. Estatisticamente, acho isso um absurdo. Mais ainda: uma impossiblidade. Embora fique cativado e agradecido com os anos que lhe acrescentaram. E pesaroso com as condições de vida em que também predeterminaram que vivesse esse intervalo que generosamente me doaram.


A verdade é que o valor determinista dessas projecções é nulo ou de nenhuma relevância. O erro primeiro, e talvez o mais gravoso, é que elas parecem ter sido feitas pelos especialistas errados. O bom senso aconselharia que o mesmo estudo fosse feito pelos especialistas que perscrutam os meandros da vida e da morte, da saúde e da doença: os médicos.


Mas não! Hoje em dia existe uma espécie, a que já me referi, que se imiscui impudicamente em todos os sectores da vida humana, que opina sobre temas que fogem da sua área de conhecimento e que, criminosamente, decidem ou são preponderantes na tomada de decisão: os economistas.


O segundo erro cometido pelos ditos técnicos omniscientes é que sustentaram tais projecções em dados que, mesmo na actualidade, são obsoletos e descartáveis. A esperança média de vida na civilização ocidental dos nossos dias decorre da conjugação do modo de vida menos sedentário de há décadas atrás, com a implementação de medidas preventivas no domínio da saúde, com progressos inusitados na ciência médica, incluindo a emergência de tecnologias sofisticadas de diagnóstico e terapêutica.


Pois bem. O sedentarismo tenderá, inevitavelmente, a aumentar, num reflexo de um modo de estar pouco consentâneo com os padrões aconselháveis de uma vida saudável. O ritmo de vida, o frenesim de um quotidiano que nos pretendem impor, em que a competitividade, a mobilidade, a incerteza e a impossibilidade de afirmar projectos de vida estáveis são noções de culto propagandeadas pelos reverenciados especialistas, apontará para níveis de ansiedade que se tornarão crónicos e, por consequência, letais.


Por isso, não pretendam confundir mentes, tomando-nos por imbecis. As pessoas viverão cada vez menos e, por isso mesmo, não deveremos atribuir a, também predeterminada, falência dos sistemas de segurança social ao prolongamento da esperança média de vida.


Preocupa-me, sim, o facto de amplas, jovens e qualificadas franjas de população activa estarem a ser relegadas para o desemprego. Uma sociedade sã não se pode dar ao luxo de desperdiçar recursos no seu auge produtivo e manter no activo cidadãos que já se encontram na fase descendente do seu perfil produtivo. Cidadão desempregado não é cidadão contribuinte.


Contradições... ou talvez não.


Palavra do Monge